terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Busca do Ideal


Existem muitos fins diferentes que podem ser buscados pelos homens, fazendo com que estes se sintam plenamente racionais, plenamente realizados, capazes de entendimento, compreensão e iluminação mútuas, da mesma forma que nos iluminamos com a leitura de Platão ou dos romances do Japão medieval - mundos e concepções muito distantes dos nossos. A intercomunicação das culturas no tempo e no espaço só é possível porque aquilo que faz dos homens seres humanos é comum a todos e estabelece uma ponte entre eles. Mas nossos valores são os nossos valores, e os deles são os deles. Somos livres para criticar os valores de outras culturas, condená-los, mas não podemos fingir que não os compreendemos em absoluto ou considerá-los apenas como subjetivos, produtos de criaturas vivendo em circunstâncias diferentes, com gostos diferentes dos nossos, que nada nos têm a dizer. 

Existe um mundo composto de valores objetivos. Refiro-me aos fins buscados pelos homens por eles mesmos, para os quais as outras coisas não passam de meios. Não sou cego em relação àquilo que os gregos valorizavam; seus valores podem não ser os meus, mas posso imaginar o que seria viver à luz deles, posso admirá-los e respeitá-los, e até mesmo imaginar-me vivendo de acordo com eles, embora eu não faça - e não o deseje fazer, além de talvez não o conseguir fazer, mesmo que desejasse. As formas de se viver são diferentes. Os fins, os princípios morais são variados. Mas não infinitamente variados: eles devem se situar nos limites do horizonte humano. Caso contrário, estarão fora da esfera humana. Se me deparo com homens que adoram árvores, não como símbolos de fertilidade ou seres divinos, com poderes misteriosos e vida própria, ou por crescerem em um bosque consagrado a Palas Atena, mas apenas porque são feitas de madeira; e se, ao lhes perguntar por que adoram a madeira, eles respondem: “Por que é madeira”, sem qualquer outra explicação, então não sei o que significa tal adoração. Se forem humanos, não são seres com quem eu possa me comunicar- existe entre nós uma verdadeira barreira. Para mim, eles não são humanos. Nem sequer posso chamar seus valores de subjetivos se não consigo imaginar como seria seguir essa orientação de vida. 

O que fica claro é que os valores podem se entrechocar - é por isso que as civilizações são incompatíveis entre si. Os valores podem ser incompatíveis entre diferentes culturas, entre grupos. Os valores podem facilmente se chocar no interior de um único indivíduo; e, se isso acontecer, não quer dizer que alguns valores são verdadeiros e outros falsos. A justiça, a justiça rigorosa, constitui um valor absoluto para algumas pessoas, mas não é compatível com valores não menos importantes para elas - a misericórdia, a compaixão - como acontece em casos concretos pertencentes à mesma cultura ou entre você e eu . Você acredita que se deve dizer a verdade em qualquer situação; eu não o faço pois acredito que às vezes isso é demasiado doloroso e destrutivo. Não podemos discutir nossos diferentes pontos de vista; podemos chegar a um acordo, mas ao fim e ao cabo o que você busca talvez não seja conciliável com os objetivos a que dediquei. 

Tanto a liberdade quanto a igualdade estão entre os objetivos básicos procurados pelos seres humanos durante muitos séculos; mas a liberdade total para os lobos é a morte dos cordeiros; a liberdade total dos poderosos, dos talentosos, não é compatível com o direito a uma existência decente para os fracos e os menos talentosos. Um artista, a fim de criar uma obra-prima, pode levar um tipo de vida que arrasta sua família para a miséria e a imundice, coisas que são indiferentes para ele. Podemos condená-lo e declarar que a obra-prima deveria ser sacrificada em favor das necessidades humanas; também podemos defender sua posição - mas as duas atitudes supõem valores que para alguns homens e mulheres são os mais importantes, bem como compreensíveis por todos nós se tivermos algum tipo de condescendência, imaginação ou compreensão para com os seres humanos. A igualdade pode exigir a restrição da liberdade daqueles que desejam dominar; a liberdade - sem um mínimo da qual não existe escolha nem, portanto, possibilidade de se permanecer humano, no sentido que atribuímos a essa palavra - está sujeita a restrições a fim de abrir espaço ao bem-estar social, para que o faminto seja alimentado, o destituído seja agasalhado, o sem-teto seja alojado, e abrir espaço à liberdade de outrem, para que possa ser exercida a justiça ou a probidade. 

Antígona defronta-se com um dilema para o qual Sófocles sugere uma solução, Sartre oferece a oposta, enquanto Hegel propõe a “sublimação” em um nível mais elevado - pobre consolo para os que são atormentados por tais dilemas. A espontaneidade, uma maravilhosa qualidade humana, não é compatível com a capacidade de planejamento organizado, de um cálculo correto a respeito de como, até que ponto e onde agir - e disso pode depender em grande parte o bem-estar da sociedade. Todos temos consciência das angustiantes alternativas propostas por um passado recente. Deve o homem resistir a uma tirania monstruosa a qualquer preço, mesmo que isso custe as vidas de seus pais ou filhos? Deve uma criança ser torturada para se obter informações sobre perigosos traidores ou criminosos? 

Esses choques de valores constituem a essência do que eles são e do que nós somos. Se nos dizem que tais contradições serão dissipadas em um mundo perfeito no qual todas as coisas boas podem, em princípio, ser harmonizadas, então devemos responder aos que afirmam isso que o sentido dos termos denotativos dos valores conflitantes não é o mesmo para nós e para eles. Devemos dizer que se encontra totalmente fora de nossa compreensão um mundo no qual não esteja em conflito aquilo que vemos como valores incompatíveis; que os princípios em harmonia nesse outro mundo não são os princípios com que estamos familiarizados em nossa vida diária; se eles se mostram diferentes, é porque foram transformados em concepções por nós desconhecidas neste mundo. Mas é neste mundo que vivemos, e é daqui que devemos crer e agir. 

A noção do todo perfeito, a solução final, em que todas as coisas boas coexistem, não me parece apenas inatingível - isso é um truísmo - mas, conceitualmente incoerente; não sei o que significa uma harmonia desse tipo. Alguns dos Grandes Bens não podem estar em convivência. Essa é uma verdade conceitual. Somos condenados a escolher e cada escolha traz o risco da uma perda irreparável. Felizes os que vivem sob disciplina que aceitam sem questionar, que obedecem espontaneamente às ordens de seus líderes, espirituais ou temporais, cuja palavra aceitam como lei infrangível; igualmente felizes os que, através de seus próprios métodos, chegaram a convicções claras e inabaláveis com relação ao que fazer e o que ser, sem a menor sombra de dúvida. Só posso dizer que os que se instalam nesses confortáveis leitos do dogma são vítimas de uma miopia auto-imposta, antolhos que podem trazer contentamento, mas não a compreensão do que significa a humanidade do ser. 

Isaiah Berlim

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