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quarta-feira, 12 de junho de 2019

O destino e ela


Vai saber o que a vida nos reserva... Esse mistério pode ser tanto um consolo como um pesadelo...

Conheci você naquele café em que eu ia sempre que não dava tempo comer algo antes de sair de casa, porque eu estava atrasada para ir à aula. Era praxe passar ali, pedir um cappuccino e ir tomando enquanto corria com meus livros na mão para mais uma aula de francês.

Naquele dia estava mais frio que o normal. Apesar de eu não ser uma pessoa que sente tanto frio assim, resolvi levar um casaco, mas a falta de costume me fez esquecê-lo em cima da mesa do estabelecimento. Só dei falta dele quando saí da aula e notei que realmente havia esfriado. Voltei esbaforida ao café e lá estava ele, no entanto, o que eu encontrei ali foi seu olhar para minha confusão e seu sorriso, que me esquentou mais do que qualquer casaco que já tive.

Começamos a namorar naquele mesmo ano e parecia que durante toda a nossa vida havíamos construído repertórios para podermos dividir uma história juntos. Tudo fluía muito bem, sempre fomos muito parceiros. Entretanto, naquele dia em que estávamos na sua casa vimos que éramos grandes amigos, mas aparentemente nossas perspectivas de futuro haviam se desentrelaçado.

Diferentemente dos meus outros términos nós entendemos muito bem que ali havia acabado uma parte do nosso relacionamento. Em meio a beijos, lágrimas, risadas e abraços nós nos despedimos, mais uma vez fazendo acordos, como era nossa maior característica: continuaríamos sendo bons amigos, não nos afastaríamos e ficaríamos bem. Fui para casa anestesiada pelo que tinha acontecido, mas orgulhosa de termos conseguido ser companheiros até durante o fim.

No decorrer da noite tive um sonho agitado e não consegui dormir bem. Acordei bem cedo e fiquei olhando para o teto, tentando entender o que faltava para que eu conseguisse fazer minha parte no acordo... Resolvi externalizar o que tinha acontecido, falar em voz alta muitas vezes me fez cair em si, então contei às minhas amigas que havíamos terminado, elas ficaram preocupadas, não entendiam como o destino tinha feito isso com a gente e eu falei “não foi ele, fomos nós”.

Escrevi uma mensagem na minha rede social favorita, em que compartilhei uma foto de uma das nossas viagens e contei como era grata por ter dividido a vida com você por cinco anos. As mensagens foram chegando, algumas admiradas pelo fim, outras surpresas com a decisão de me despedir também na internet e havia ainda quem apostasse na nossa volta. Por mais que eu me sentisse querida por todos aqueles amigos estava querendo mesmo era saber o que você sentia, porque algo dentro de mim se questionava sobre a decisão que havíamos tomado.

Você respondeu com outro post, uma foto engraçada, de quando havíamos acabado de nos conhecer. Nela você dizia que torcia por mim e que eu podia contar com você. Apesar de ser isso que esperava, confesso que naquele momento me questionei se saberia mesmo esperar algo de ti, se saberia ressignificar sua presença na minha vida. Pela primeira vez fui atingida por um forte choro e um sentimento de arrependimento. Eu não queria te deixar ir.

Durante aqueles dias eu tive a sorte de estar cercada de amigas, só assim consegui sobreviver sem meus fones que haviam ficado na sua casa. Eu e você nos falávamos com alguma frequência, conversando amenidades ou rindo de memes que escapavam entre nossos compartilhamentos. Ter você por perto era bom, mas ao mesmo tempo era repleto de dor e saudade, então, todos os dias, em algum momento, eu ficava mal e triste e parecia que aquilo não passaria mais.

O pior momento foi quando sua felicidade começou a me incomodar. Você não era a pessoa que compartilhava a vida online e passou a fazer isso com tanta frequência que na terapia eu cheguei a cogitar se boa parte do meu tempo não era dedicado a te acompanhar virtualmente. A dor crescia e parecia que, por mais que eu tentasse lembrar de como chegamos ao “término do bem”, nada adiantava.

Sofri uma intervenção das minhas amigas. Elas não me deixavam ficar em casa aos finais de semana e haviam me obrigado a reduzir o consumo das redes sociais. Seu nome era praticamente proibido dentro do grupo e eu virei a companheira ideal para todos os passeios, pois elas não me deixavam ficar “sozinha para sofrer”. No fundo, apesar de reclamar o tempo todo de ter minha individualidade roubada, foi muito importante ter uma rede de apoio.

Foi essa rede que me encorajou a buscar minhas coisas na sua casa. Por dias eu procurei uma forma de ir lá sem que você estivesse, mas achei que poderia configurar invasão de domicílio; pensei ainda em pedir a alguém para passar lá e pegá-las, mas aquilo não combinava com nosso estilo; então resolvi jogar o jogo do destino.

Combinei comigo mesma que se na manhã seguinte eu acordasse a tempo de tomar café em casa eu iria para o curso, adiaria em mais um dia o resgate dos meus pertences. No entanto, se eu acordasse atrasada eu iria tomar cappuccino, como naquele primeiro dia, e passaria na sua casa para buscar minhas coisas. Acreditei piamente que eu conseguiria ir à aula, porque não conseguia pregar o olho de tão ansiosa. Contudo, adormeci lá pelas cinco da manhã e acordei com duas horas de atraso do início da aula. O destino havia escolhido.

Não te avisei que iria, achei que poderia ter a sorte de te pegar fora de casa. Ainda bem que toquei a campainha e não fui entrando, porque lá estava você, sem camisa, aparentemente surpreso em me ver, talvez ocupado demais para notar quantas coisas minhas haviam espalhadas pela sua casa, porque não precisei procurar muito, elas estavam no mesmo lugar em que eu as havia deixado semanas atrás.

Juntei minhas coisas meio sem jeito, lutando contra o constrangimento do silêncio enquanto um turbilhão de pensamentos ecoava na minha cabeça. Você me acompanhou até o portão, como naquele dia do fim, e aquilo foi muito embaraçoso para mim. Subi rapidamente na minha bicicleta, coloquei a mochila na cesta e me despedi. Conectei meu fone no celular e coloquei uma música, para que ela gritasse nos meus ouvidos enquanto eu me afastava com a velocidade que as lágrimas que corriam dos meus olhos permitiam.

Hoje eu sei que não importa o quão harmonioso é um final, ainda assim ele é o encerramento de algo que existiu. Tudo que prometemos um ao outro, até durante o fim continua vivo em mim, mas ainda assim, o que me faz levantar todos os dias é convencer-me que eu tenho que criar minhas próprias memórias e cumprir as promessas que faço a mim mesma. A mais recente delas é que vou ficar bem, porque ainda estou viva e não sei o que o destino me reserva, se será sorte ou revés.

Toda história tem dois lados. Esse é apenas a minha visão sobre esse nó que se desfez. Se você quer saber a versão dele clica aqui.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Astros

Há alguns anos-luz percebi que eu não precisaria ser Satélite de ninguém para ser querida, aceita ou respeitada, dessa forma, eu me tornei uma pessoa mais independente. Todos os corpos celestes concordam que é interessante ter Satélites, mas os misteriosos Cometas compõem um grupo particularmente instigante. Então, por ter um gosto inclinado a desviar-se da normalidade do universo e por acreditar que a luz do Sol me bastava me tornei um Cometa. A princípio a intenção foi fugir do senso comum, depois enxerguei a possibilidade de explorar as regiões do cosmo sem compromissos e escapar das órbitas pré-definidas.

Isso beneficiou muito minhas relações. Eu conseguia ser uma boa companhia sem ser grudenta, eu frustrava os astros egocêntricos, mas implantava neles a reflexão de que é natural gostarmos de ser Planetas, ter Satélites, sejam naturais ou superficiais, ao seu redor, ou ainda ter um Sol, contudo, consegui mostrar a eles que as relações são mais trocas do que só movimentos de rotação e/ou translação.

Vivi de lá para cá, pensando, analisando, sendo eu mesma e construindo relações baseadas na responsabilidade do contato. Tendo como filosofia de vida "tu se tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" e sendo consciente de que quanto mais eu cativasse, mais presa eu estaria àqueles astros, então evitava ao máximo colisões que entrassem para a história da astronomia, priorizando passagens rápidas, onde minha cauda iluminava o local. Não vou mentir, algumas vezes me ocorreu a vontade de ter uma rota fixa e previsível, mas os movimentos da vida, esse gigantesco sistema solar, me fizeram um Cometa e a cada ano-luz eu gostava mais de mim.

No entanto, em uma de minhas rotas descomprometidas enxerguei um Planetinha, que chamou minha atenção pela quantidade de Satélites que tinha ao seu redor. Apesar de muitos nenhum deles era tão iluminado quanto esse corpo gelado que vos fala. O Planeta se encantou por mim e vivemos o caso de amor mais lindo do Universo.

O problema é que o Planeta, sempre acostumado a ter astros ao seu redor, não conseguia entender como o único contato que teria comigo seria em forma de colisão. Nos primeiros meses, foi assustador, afinal como desejar tanto um encontro se toda vez que ele acontece deixa marcas permanentes nos dois?

O Planeta aprendeu a enxergar suas crateras, não as temer e ainda as lhe admirar. Por sua vez, entendi que mesmo que eu me desfizesse a cada contato, os choques ainda valiam a pena, já que uma parte de mim ficava no Planeta e, dessa forma, nossos corpos eram alterados a cada encontro.

No entanto, notei que o Planeta começou a fazer um movimento em torno de um Sol, tal deslocamento ainda desconhecido (ou despercebido) por mim. Senti um medo tremendo! Medo das nossas rotas não se cruzarem, medo dessa locomoção não permitir o contato, medo de ser só mais um astro que vaga enquanto as estações do Planeta estão se definindo...

O Planeta me assegurou que isso era normal, acontecia anualmente com mais frequência do que eu poderia imaginar, garantiu ainda que isso não iria afetar em nada as nossas colisões. Mesmo assim eu fiquei receosa, principalmente ao perceber que não era do meu feitio sentir falta, especialmente de um simples Planeta, afinal, como um Cometa, eu vinha percorrendo todos os espaços possíveis na galáxia.

Foi aí que me ocorreu o seguinte pensamento: “quanto mais em volta deste Planeta eu transitar, mais me tornarei um Satélite, daqueles sem graça, que existiam aos milhões sem uma iluminação descente ao redor do Planeta”. Diante disso, eu resolvi andar. Passei a procurar poeira lunar, conheci os anéis de Saturno, senti o calor do Sol por conta própria e explorei o espaço sideral.

Lá no lugar dele o Planeta sentia a falta daquele ser viajante e não entendia o porquê de as trajetórias percorridas terem se tornado tão longas, se o Cometa sabia que ele continuava o mesmo astro, no mesmo lugar.

Em uma das minhas viagens resolvi ver como as estações estavam ocorrendo por aquele Planeta tão querido. Ao entrar em sua órbita avistei um Planeta frio e sozinho. Chocando-me com ele eu perguntei: "Qual o problema? Onde estão suas voltas em torno do Sol?!”. O Planeta me explicou: "Não há Sol que esquente da mesma forma que a sua cauda faz ao cruzar a atmosfera.”.

Não há nada mais carente do que um Cometa que precisa se chocar por aí e não há nada mais emocionante para um Planeta do que um acontecimento que altere seu status quo. O encontro dos dois é uma coisa mágica, todas pessoas do mundo param para ver.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O Agosto, o agora

Quando ele a chamou para ir à sua casa, ela já sabia que aquilo tinha 50% de chance de acontecer.
Na verdade, se não fosse ali, logo seria em outro lugar. Por quê? Porque as coisas se encaminhavam pra isso, desde as conversas que haviam tido há um mês, desde a fuga de pijamas e todas as outras coisas que ela conhecia nele. 
Ela se deixou levar, afinal, não é só ele que anda perdido, carente e desajustado no mundo. Além disso, ela já tinha evitado tanto, durante todo o ano passado, durante os outros encontros, durante todos os momentos de fragilidade que dividiram desde o fim, há quatro anos. Chegara a hora de ceder.
O que aconteceu foi que ela se deixou levar pela sedução dele, que não teve muito trabalho, na verdade. Foi abraçando, beijando o ombro, a bochecha, a boca...
E ela beijou sua boca. Beijou e beijou. 
Coisa boa é redescobrir beijo, é como começar de novo, mesmo sabendo que ali, perdido entre línguas, dentes e saliva, alguma coisa é conhecida, algo já te fez bem, mesmo há um bom tempo. 
Coisa boa também é descobrir coisas novas, com pessoas velhas. A barba rala dele arranhava o rosto dela, e depois arranhou o peito, de um jeito muito bom, um jeito quente que fazia com que ela quisesse mantê-lo ali, por perto. Suas penas enroscadas, demonstrando proximidade e mais intimidade do que naqueles quatro "meses oficiais". Ele tinha mãos pacientes nas horas certas e efusivas nas horas mais certas ainda...
Mas o melhor, foi o que veio depois, ela saiu dali com uma consciência amiga, tranquila, sem medo, ligada no presente, não no futuro, e acredite, nem no passado. 
Foi tudo um presente efêmero do agora.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

- Tu é um ser muito estranho, sabia?
- Eu? Por quê?
- Porque você consegue ser mais estranho do que eu, mais enigmático do que eu, mais confuso do que eu!
- Ah, não, eu não sou mais confuso que você, não dá!
- Pior que você é, porque você é tão medroso quanto eu! Ou mais...
- Ha ha ha, uma coisa que eu não sou é mais medroso que você!
- Você na verdade, não quer ser, mas é. Você quer ser ousado, mais teme a liberdade. Quer satisfazer todas as suas vontades mas sempre teme a impressão que os outros tem de ti. E principalmente, você tem medo de não se controlar.
- Como assim?
- Você tem medo que eu me apaixone por você, ou pior ainda, você tem medo de se apaixonar por mim!
- Não é isso...
- Eu não preciso que você minta pra mim, já é triste demais vê-lo enganar a si. Vá de uma vez.
E ele se foi, ou ela achou que sim, não conseguiu ouvir seus passos se afastando da porta, parecia que ele estava do outro lado dela, como sempre esteve. Caberia a ela, então, andar na direção oposta a dele?

domingo, 17 de junho de 2012

A estagiária

Ela fazia estágio duas vezes por semana em uma instituição filantrópica em uma cidade vizinha. Odiava aquele estágio, por vezes ia chorando dentro do ônibus. Estava passando por dias realmente ruins. Talvez a instituição do estágio, a supervisora e o estágio em si, provavelmente fossem ótimos. Ela é que estava inventando um monte de cruzes para carregar...

Um dia olhou pela janela num ponto em que muitos desciam para uma conexão e viu um sujeito parado. Gostou dos olhos dele, lembrou na hora dos famosos "olhos de ressaca" que Capitu tinha em Dom Casmurro, do Machado de Assis. Ele tinha aquele olhar perdido, meio sonolento, que aparentava calma mesmo na hora de um aperto. O ônibus seguiu seu trajeto e seus pensamentos voltaram à depressão de voltar àquela instituição sem ter a menor noção do que deveria fazer. 

Passados dois dias voltou a pegar o ônibus e percebeu que o sujeito estava lá dentro! Ele pegava o mesmo ônibus, mas descia antes dela. Ele estava sempre sério, às vezes com fones no ouvido, às vezes lendo alguma coisa... Nunca olhando para os lados. Nunca olhando para as pessoas, muito menos para ela.

Um dia ele desceu e ela se distraiu a olhá-lo. Ele percebeu, pois a olhou de fora com expressão um pouco desconfortável. Ela mais do que depressa desviou o olhar e procurou ser mais discreta. Não, aquilo nem de longe era uma paquera, tanto que sua principal preocupação era que ele nunca percebesse seus olhares.

Estava gostando de passar aqueles minutos, que outrora passavam dolorosamente, a imaginar o que ele estaria lendo, o que ouvia e no que pensava enquanto olhava demoradamente pela janela.

Ele era um homem alto e aparentemente sério. Não era o tipo de homem que ela gostava, todavia quando ele estava com a barba por fazer ela se demorava mais ao olhá-lo, ela gostava da barba. E assim ela foi desde abril até meados de setembro, todas as manhãs olhando-o e sempre cuidando para que ele não percebesse.

Próximo ao fim de setembro se deu conta de que o estágio estava acabando. E consequentemente, as viagens pela manhã estavam acabando. Ela não voltaria a ver aquele sujeito alto e sério, que sempre ouvia músicas que ela não sabia quais eram e lia coisas que ela não sabia se comoviam alguém. Ela não gostou da ideia de ter passado quase seis meses observando uma criatura para depois nunca mais vê-la. Resolveu que algo deveria ser feito, então contou a situação aos seus amigos. 

Foi uma agitação só. É claro que seus argumentos de que não era mais do que curiosidade não convenceu as suas amigas, que ficaram eufóricas com a história. Uma delas, que parecia ser um pouco mais sensato, fingiu que entendeu seus argumentos, do mesmo jeito que sempre havia fingido ser um pouco mais sensata.

Pensaram juntas em algo que ela deveria fazer. 
- Devo dizer "bom dia?" 
- Nem pensar. - disse a amiga.
- Sentar-se ao lado dele? 
- Não, não é uma pressão física, moral e psicológica.
- Fingir uma convulsão e se jogar em espasmos sobre seu colo? 
- Hum... não, não. Melhor não.
- Assim fica difícil...

Passaram mais de uma noite pensando. O tempo estava passando e, em breve, ela não o veria mais. Até que a amiga, que fingia ser sensata e fingiu entender a inocência dos motivos dela, teve uma brilhante ideia: Antes do Amanhecer. É aquele filme, dos dois jovenzinhos românticos que viajam de trem e se apaixonam e têm até o amanhecer do dia para ficarem juntos. Era só isso. A ideia constituía-se em entregar o filme para cara. Simples assim, sem bom dia nem sentar-se ao lado dele nem convulsão. A amiga fez uma cópia do filme.

No último dia de estágio ela escreveu seu e-mail na contra capa e foi para sua última viagem decidida a falar com o tal sujeito sério. Sabe-se lá o que havia acontecido naquele dia, mas o fato é que não havia ninguém sentado ao lado dele, nem na frente dele, nem atrás dele... Ela se encolheu num banco à frente. Abriu um livro. Fingiu ler, mas era incapaz. Naquele momento seu coração já havia percorrido todo seu esôfago e estava chegando feliz da vida na garganta. 

Antes que o sujeito descesse do ônibus e seu coração se atirasse de sua boca, se virou e tentou um sorriso torto. Falou meia-dúzia de palavras que não faz a mínima ideia do que seja e entregou o filme a ele. Ele agradeceu (ela não gostou da voz dele) e sorriu (um sorriso que a assustou pois nunca havia imaginado como seria seu rosto quando sorria). Despediu-se, desceu do ônibus e ela ficou ali.

No que deu tudo isso? Em nada. Eu sei que é frustrante. Mas ela é só uma estagiária. 

Eles chegaram a trocar alguns e-mails a partir de novembro, quando abriu sua caixa de mensagens e leu o e-mail educado de um sujeito de nome estranho que dizia ser o cara do ônibus. Ficou sem graça, com um sorriso no rosto, pois havia imaginado todos os nomes do mundo para o sujeito sério, menos aquele composto arrebatador. Que lindo é seu nome... Gostaria de poder contar, mas seria expor o rapaz e seu código de ética não permite isso.

Até hoje ela guarda com todo sigilo como ele se sentiu ao receber aquele filme ótimo de uma desconhecida dentro de um ônibus. Não se sabe se ele disse em algum e-mail o que achou do filme, mas os dois nunca mais se viram.

Ela sempre se lembra dele quando entra num ônibus, e às vezes até olha a sua volta esperando vê-lo lendo um livro ou com fones de ouvido... Se o visse iria sorrir de verdade dessa vez, pois ficaria verdadeiramente feliz por encontrá-lo. Deve ser uma pessoa interessante, apesar de sério.

A estagiária aprendeu a delícia que é sentir seu coração percorrendo todo seu esôfago e o desespero de ter que agir antes que ele alcance a garganta e salte feliz da vida pela boca. Estagiários existem pra aprender...

segunda-feira, 16 de abril de 2012


"[...] Deitados juntos pela primeira vez e o dia seguinte foi tão gostoso que parece que ainda não terminou. Não sei quantas vezes te deixei bem triste, não sei se comigo foi feliz, ou não. Não sou exatamente o cara mais fácil que existe mas posso te dizer que para sempre te trarei dentro do meu coração."

Nando Reis
Ela: O que te atrai em mim?

Ele: Deixa eu ver... Tipo fisicamente?

Ela: Tipo atração. O que te atrai, pode ser fisicamente, temperamentalmente...

Ele: Me atrai a forma que você me domina, tua perversidade sutil, o jeito que você se veste, tua raiva...

segunda-feira, 26 de março de 2012

Nem só de beijos e abraços vivem os relacionamentos

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Desde aquele almoço muita coisa aconteceu. Julia inicialmente precisou realizar algumas mudanças, primeiro no visual, porque as mulheres insistem em mudar por fora pra ver se conseguem modificar o interior, e depois o meio onde estava. Encaixotou todos os CDs dos Los Hermanos e dos Engenheiros e guardou também o tapete. Tudo que trazia Levi foi levado para o sótão, junto com as coisas que a gente não sabe se joga no lixo ou guarda, em caso de necessidade. Julia começou a sair mais com as meninas de sua sala e resolveu não aparecer tanto onde tinha o risco de encontrar com Levi. 
Enquanto isso, Levi voltou pra casa e também decidiu sair dessa situação de indecisão. Resolveu que iria agir de acordo com o seu senso de justiça, mesmo se ele fosse antiquado para Sofia ou moderno demais para Julia. Ele se sentia culpado por não ter conversado direito com Julia e por saber, através de Samuel, que ela não queria nem escutar seu nome. Resolveu então, que não pode mais viver só pra esse triângulo amoroso que é tão cheio e vazio de gente e começou querer organizar sua vida, seus pensamentos, sentimentos e ações. 
Aparentemente era só mais um sábado que passava com Sofia. Estavam vendo um filme francês na casa dela. Ela vestia sua camisa dos The Strokes e estava tão linda quanto sempre. Ele pensou que aquela conversa com certeza a desgastaria, mas não podia mais evita-la. 
- Sofia... 
- Oui mon amour. Sim, meu amor 
- A gente tem que conversar. 
- Nós estamos conversando, eu acho. - Disse ela sorrindo. 
- Sabe Sô, depois de toda aquela situação horrível com a Julia, acho que tá na hora da gente rever umas coisas entre a gente... 
- Não entendi a relação Levi. 
- Eu fiquei muito chateado com a situação que fui forçado a viver. Eu acho que se a gente tivesse desde o começo se “organizado”, eu ainda seria amigo da Julia hoje. 
- Você sente falta dela? 
- Claro, ela era uma grande amiga, não quero que fique chateada comigo. 
- Então conversa com ela... 
- Eu acho que já mencionei outras vezes que ela não quer saber de mim... 
- Ok, agora me diz o que isso tem haver com “a Sofia”? 
- Não é com “a Sofia”, é com “a Sofia e o Levi”? 
- Continuo sem entender Levi. 
- Eu acho que já passou da hora de nós termos um relacionamento sério. 
- E a gente não tem? 
- Não, a gente não tem. Eu acho que a gente tem que namorar Sofia. 
- Tão antigo sentir-se proprietário de alguém, demarcar espaços... 
- Eu não acho, acho que é muito atual. 
- Atual e condizente com a sociedade. 
- Sofia, não força... 
- Levi, não é um título que vai fazer a gente se amar mais. 
- A questão não é essa. A questão é que se nós tivéssemos namorado desde o inicio, tudo seria diferente. Eu não teria beijado a Sofia, ela não teria ficado apaixonada e ainda seríamos amigos. 
- Você acredita mesmo nisso? Ela era apaixonada por você antes disso... 
- Que seja. Mas acho que já passou da hora da gente namorar. 
- E se eu não quiser? 
- Eu vou ter que usar da “liberdade” que você me deu para te "obrigar". 
- É o que? 
- Eu tive um relacionamento aberto com você por muito tempo. Por muito tempo eu tive que aprender a lidar com muitas coisas que me foram ensinadas, aprender que ser leal não quer dizer se fiel, aprender que mesmo amando alguém você pode se interessar por outras pessoas. Agora, acho que depois de tanta troca e divisão de concepções, está mais do que na hora de você tentar aprender ou até fazer um “sacrifício” por mim e namorar comigo. 
- Você aprendeu bem pouco não é? Você não percebe que só assim, com esse relacionamento simples você já faz parte da minha vida e fará sempre, de uma forma ou de outra. 
- Percebo sim e percebo muito mais. Você é ortodoxa demais com suas escolhas. Você quer que os outros se adaptem ao seu mundo e não é capaz de fazer isso por alguém. 
- Ah, faça-me o favor! 
- Sofia, você é mais egoísta do que você pensa. 
Ela chorou. Pela primeira vez Levi a viu chorando. Sabia que suas palavras tinham sido fortes demais, mas guarda-las não seria da sinceridade que ela tanto queria e exigia dele. 
- Levi, nós somos felizes do nosso jeito, como nossas diferenças e nossos segredos... 
- Isso não é o “nosso jeito”, é o jeito que você escolheu pra gente. E ser feliz não significa que tenhamos que viver assim pra sempre. Qual é o problema em namorar, Sofia? 
- Acho desnecessário se arriscar se está tudo dando certo. Eu não quero namorar com você, de uma vez por todas! E não quero mais conversar... 
- Nem eu. 
- Não quer mais conversar ou namorar? 
- Nenhuma das duas coisas, eu acho. 
E Levi foi embora. Na segunda à noite, na aula de francês, a professora anunciou para a sala que Sofia havia passado na prova de intercâmbio e que iria para a França em um mês. Em outra situação, eles teriam saído pra comemorar, mas naquela noite não. Os dois ainda estavam surrados das palavras que haviam trocado no fim de semana.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Quem deu a ultima palavra foi a razão

- Jéssica, tá acordada?
- É... estou. - falou seu coração, ainda receoso, devido ao último diálogo.
- Andei pensando... Lembrei de uma coisa que Gabriel Garcia Marquez escreveu uma vez e vi que se encaixa com a sua, ou melhor, com a nossa situação.
- E o que é?
- "Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a este artifício conseguimos suportar o passado."
- É, acho que vai servir pra gente.
- Acho que você tem que aprender a lidar com isso.
- É que as boas ainda são as mais profundas.
- E é assim que tem que permanecer.

terça-feira, 20 de março de 2012

Diálogo

- Jéssica, por que é tão difícil pra você esquecer esse menino?
- Não sei, talvez porque o perfume dele ficou na minha roupa...
- Ah meu Deus... Tá na hora de você deixar que ele saia da sua vida! Tá na hora de você construir algo novo!
- Não dá...
- Por que não? Você ainda gosta dele?
- Não se trata disso.
- O que é então?
- Eu não posso deixá-lo ir porque ele não está comigo. Não mais.

E as duas amigas se calaram. Ter uma consciência questionadora era difícil. Mais difícil ainda era ter um coração mole, que se derretia com o que captava dos sentidos. Ser duas em um só é difícil, mas ela não conseguiu pensar sobre isso, já que o cheiro dele pairava por ali e não a deixava dormir, até que ela alcançou a graça de "não pensar em nada" e então adormeceu.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Júlia como nunca se viu



Quando Levi saiu do banho perguntou quem era. Sofia falou tranquilamente que era Julia e que ela havia pedido que ele ligasse. Ele ficou sem jeito. Essa história com a Julia estava deixando-o aflito e com sensação de mãos atadas. Sofia disse que o mais correto seria ligar para ela e tentar explicar pra ela o que passava na cabeça dele, para que assim tentasse entender a dela. 
- Como é que eu explico pra alguém o que eu tô pensando se nem eu consigo entender tudo isso? 
- Levi, você não pode deixar ela sem entender o que vocês viveram... 
- Você quer que eu diga o que pra ela, Sofia? 
- Quero que diga o que ela merece escutar. Ela não é sua amiga? Você não tem respeito e um carinho por ela? Então porque não tentar explicar pra ela? 
- Eu não sei o que dizer a ela, eu não sei o que penso sobre o que vivemos, sobre como isso afeta você, sobre como isso afeta tudo... 
- Mas você tem que saber Levi, porque ela tem que saber também. Se foi algo só de uma noite, se vai ser um relacionamento aberto, se você quer ter algo sério... Não pode é deixá-la esperando... 
- Sofia, eu não entendo como você consegue ter tanto sangue frio de falar disso como se não te envolvesse... 
- E não me envolve. Essa parte da história é só entre vocês, eu estou de coadjuvante, se é que estou. E eu não tenho sangue frio, eu só quero que você preserve o cara por quem eu me apaixonei aí dentro, um cara íntegro e sincero e não um cara que se acomoda, por viver em relacionamentos abertos. 
Ela se levantou da cama. Ele foi atrás dela, não estava entendendo se isso tinha se tornado uma discussão. Sofia disse que não, que só estava atrasada para a aula. Pediu que ele deixasse a chave com o porteiro e saiu. Levi ficou pensando, deitado na cama, ainda enrolado na toalha. Ele não fazia ideia de como lidar com as coisas que vinham acontecendo. 
De algumas coisas ele tinha certeza: Gostava de Sofia e não havia pessoa mais certa para ele, no momento. Era incrível como ela conseguia ser justa até quando corria riscos de se machucar, ele queria ser como ela nessas situações. Mas não era. 
E esse era o maior problema. Ele sabia que era egoísta demais pra querer sair perdendo. Isso não se tratava de um jogo de sedução, mas de algo realmente importante. De um lado, ele tinha Sofia, alguém incrível que conheceu e que não cogitava nem por um minuto perder, do outro Julia, a menina que mexia com ele de uma forma tão inexplicavelmente estranha que ele não entendia quando estava longe dela. Quando estava ao lado dela era como se nada no mundo pudesse ser diferente, eles se completavam nas mais diversas formas possíveis, ele gostava de tudo nela, até das suas ansiedades e ele não queria ter que se afastar dela, muito menos feri-la. 
Resolveu que não iria à aula e que iria tentar entender as coisas com Julia em um almoço, talvez. Ligou pra ela, mas o celular dela chamou varias vezes e não atendeu então resolveu ligar para o número que ela havia ligado. Quem atendeu foi Beatriz, ele explicou que era um amigo (?) de Julia e que estava tentando falar com ela, mas ela não atendia o celular. A garota explicou que ela havia deixado o celular em casa, por engano, mas que iria procurá-la e ligaria de volta. 
Os 20 minutos que passaram pareceram uma eternidade para Levi. Ele se vestiu, arrumou a cama e ficou deitado esperando o toque de Beatriz. Quando o telefone tocou a menina foi se desculpando pela demora e disse que quase não achava Julia que estava lá no fundo da biblioteca e blá blá blá. Ele não escutou mais nada até ouvir a voz de Julia, assustada, surpresa, ansiosa ou triste, ele não conseguiu distinguir. 
- Julia? 
- Oi Levi, desculpa ter te ligado... 
- Não, você não tem que se desculpar por nada, se alguém tem quem se desculpar por alguma coisa aqui, deve ser eu... (Ele ainda estava confuso demais pra ter certeza de alguma coisa) 
(silêncio na linha) 
- Julia, você tá ocupada agora? 
- Não, eu deveria estar na aula, mas... 
- Eu também não fui à aula, eu queria falar contigo, pode ser? 
- Agora? 
- É a gente podia comer no restaurante que é aí perto, pode ser pra você? 
- Pode sim... 
- Tô saindo daqui. Devo estar chegando em 20 minutos. 
E cada um arrumou o que tinha de ser arrumado e se dirigiu ao restaurante próximo ao campus em que Julia estudava. Quando Levi chegou avistou ela sentada em uma mesa de costas para a porta. Ele ficou nervoso ao se aproximar, fez um barulhinho pra ser notado e a cumprimentou, com um abraço desajeitado. Ele se sentou e ficou calado, olhando para ela. Julia estava envergonhada, mas não gostava do silêncio que lhe feria e começou a falar: 
- Queria me desculpar outra vez, por ter te ligado mais cedo... 
- Julia, já disse que não precisa disso. É por causa dessa situação que estamos aqui, almoçando. Você já pediu? 
Fizeram o pedido do almoço e quando o garçom se afastou da mesa eles retomaram a conversa. 
- Eu não queria que essa conversa fosse forçada Levi. 
- Ela não foi forçada por você Julia, mas por uma séries de acontecimentos que não podem nem querem passar despercebidos. 
- Você se arrepende Levi? De domingo? 
- De ter ficado com você? Claro que não! Mas não posso mentir pra você, eu estou muito confuso Julia. E é por isso que estou aqui, pra que nós possamos entender as coisas juntos. 
Levi então começou a falar de como se sentiu de domingo até aquela terça-feira. Contou tudo, prestando atenção em cada expressão de Julia. Disse que gostou bastante de ficar com ela, que já tinha imaginado aquilo muitas vezes, enquanto estavam deitados no tapete da casa dela, disse que gostava e admirava ela, porque era uma menina bem madura, que não reprimia suas vontades, seus sentimentos. Mas disse também que, desde toda essa vontade que tinha de beijá-la nas tardes que a visitava até os dias de hoje muita coisa tinha acontecido e uma delas tinha sido Sofia. Ele foi logo falando que não a namorava, antes que uma lágrima conseguisse escorrer do olho de Julia, mas disse que isso não era o que movia o relacionamento deles. 
De forma sucinta, tentou explicar como funcionava esse lance de relacionamento aberto que eles tinham, disse que eles ficavam junto, saiam, conversavam e tinham toda uma rotina de namorados, mas não tinham o nome. Preferiu omitir o fato de isso não acontecer por conta da negação de Sofia, mas disse que ela preferia que ele fosse livre, porque ela tinha na liberdade a maior expressão do amor. 
Julia ficou confusa e cansada daquele discurso um tanto quanto utópico. Como podia amar e aguentar que o seu amor amasse outra pessoa, seria possível um só coração amar duas pessoas? Mas tudo isso ficou em seu pensamento. Calada, escutou e tentou entender aonde Levi queria chegar com tudo isso. 
Levi continuou dizendo que tinha contado a Sofia sobre o que aconteceu domingo, não por arrependimento, mas por respeito. Ele disse que ela lidou de uma forma que ele não esperava e disse que ela mais do que nunca o deixou a vontade para levar a vida com Julia, se assim ele quisesse. Contudo, ele disse que não sabia o que queria. Não sabia porque não tinha construído essa parte da história com Julia e não queria construir sozinho e era por isso que estava ali, para entender, junto com ela, o que eles tinham e como eles pretendiam viver daqui pra frente. 
Julia foi bem séria e calma ao falar que infelizmente não era tão madura quanto Sofia parecia ser. Que para ela gostar ainda significava confiar, ser cúmplice, ser fiel. Talvez ela não entendesse a “forma livre” de Sofia amar, mas ela ainda acreditava que não era possível amar alguém e ainda se deixar ferir. Quem sabe ela ainda não tinha maturidade suficiente para aprender a deixar o outro livre para viver e seguir a diante com sua vida, ela queria alguém que passasse uma certeza que ela não encontrava em si, alguém que se permitisse resistir as tentações e às coisas que aparecem quando se estar junto de alguém. Com certeza ela não era nem metade da pessoa que Sofia era ou que Levi procurava, sem dúvida nenhuma. Pediu que ele não a comparasse com Sofia, porque desse jeito eles não iriam construir nada. Ao finalizar sua fala ela estava levemente irritada. 
Levi tentou calmamente explicar que não a comparava com Sofia, que elas eram distintas em muita coisa, apesar de saber que elas também se pareciam em várias outras. Ele disse que só contou tudo isso para que ela entendesse como as coisas aconteciam entre eles, como uma forma de ajudar ela a tomar uma decisão... 
Ela disse que não queria tomar nenhuma decisão. Ela questionou o método de “construção do junto” que ele usava e o acusou de querer se livrar do peso da decisão empurrando isso para ela. Disse que não acredita em um relacionamento aberto, ou sei lá como ele chamava aquilo, disse que não acreditava em muita coisa e uma dessas coisas era que ele gostava dela. 
Julia se levantou e saiu antes mesmo do pedido chegar. Com os olhos cheios de lágrimas, mas sem deixar nenhuma delas escorrer, saiu apressada com um só veredito desse almoço: não era o rosto de Levi, nem suas palavras que ela queria encontrar tão cedo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

ainda Julia

parte cinco.

Julia percebeu que até aquele momentos estava tudo bem entre eles, as coisas só começaram a mudar a partir do dia em que, sem querer (?), eles se beijaram, próximo ao dia em que Gabi veio passear na cidade. Depois daquilo Levi sumiu por dois meses e mudou. Ulisses, Tereza e Mateus (seus colegas de intervalo) estavam na mesa de sempre, mas Levi não. Samuel disse que talvez ele tivesse brigado com Gabi, porque ele andava calado, não conversava, só respondia às perguntas.
Ela não teve coragem de ligar pra ele, não sabia o porquê da misantropia, vai que tudo era culpa daquele beijo e ela tinha ferido ainda mais o relacionamento não tão estruturado deles...
Durante os dois meses que se passaram distante de Levi, Julia não teve muito que fazer. Vez por outra se sentava à mesa com os amigos dele. Sem querer, um clima foi se formando com Mateus, Ulisses e Tereza namoravam há quase um ano e, como Levi havia lhe dito, Mateus olhava diferente pra ela. Eles ficaram por algum tempo, por quase dois ou três meses ela suspeitava, não tinha tanta certeza.
Foi só no aniversário do Arnaldo que encontrou Levi e pôde conversar rapidamente com ele. Ele estava feliz novamente, estava animado. Disse que andou estudando pro vestibular do fim do ano e que estava com saudades de escutar boas músicas com ela. 
Aquela época foi de muita felicidade para ela, Mateus era um cara incrível, carinhoso, bonito, falante, inteligente. E estar ao lado dele foi muito bom, enquanto durou. O relacionamento foi se desgastando devido à pressão do vestibular. Mateus ia tentar ITA, o vestibular mais difícil do país, e não tinha tempo pra ficar de namorico com a garota do segundo ano... Foi isso que Julia pôs na cabeça, pra não sofrer com a separação, por isso o rompimento não deixou marcas ruins nela, pelo contrário. Com o distanciamento de Mateus, Levi se sentiu mais a vontade para voltar a frequentar sua casa à tarde. Ele não queria que o amigo pudesse ficar chateado de alguma maneira com a amizade deles... 
Julia lembrou que Levi também havia passado por novas experiências, naquele período. Samuel estava lhe levando às festas movidas por "ultimas paradas internacionais", que as meninas mais bonitas da cidade frequentavam, nessa época Levi arrumou muitas “amigas”, o que não atrapalhou nem um pouco o ritmo dos seus estudos ou o tempo em que passavam juntos. Era engraçado vê-lo mais parecido com o Samuel, ao mesmo tempo que não conseguia perder aquela autenticidade que só ele possuía. Parecia que o tempo que passou pra se recuperar do "impacto" causado por Gabi tornou Levi mais confiante em si. 
O ano que chegou trouxe novidades, Levi, assim como Mateus e Ulisses tinham sido aprovados. Mateus teve que viajar e Ulisses e Levi iriam cursar faculdade ali mesmo, na cidade. Mais uma vez, Julia achava que Levi estava diferente e ela passou a não se interessar tanto por suas novidades, pensando bem, ela acho que ela estava diferente, também, estava preocupada com o seu vestibular, tinha medo de assim como Tereza, não conseguir passar. E foi isso, essa "diferença", e talvez até mesmo a indiferença, que atrapalhou muito o relacionamento deles.
Foi um ano muito difícil, cada um passou de um lado e só depois desse ano de tensão e a aprovação no vestibular, que ela relaxou. Passou a frequentar novamente as festinhas da galera, e começou a perceber que não encontrava mais Levi em nenhuma delas, assim a saudade bateu de forma desesperadora. Tudo que ela queria era ter Levi de volta, só pra ela, como nos tempos de 2º ano. Eles voltariam a dividir o mesmo universo, agora universitário, e poderiam ficar juntos novamente. Ela tinha muito o que dividir com ele e queria muito que ele a quisesse de volta, já que na época da neurose do vestibular ela não tinha sido muito agradável com ele, tanto que por um momento ele perdeu a paciência e se afastou. 
Por um acaso, encontrou com Levi, e não resistiu. Assim que o viu, gritou seu nome e o abraçou. Ele parecia desconcertado em tê-la nos braços, mas ela percebeu como o coração dele também batia forte, Ali, nos batimentos dele ela confortou a cabeça. Naquela madrugada, eles conversaram muito. Ela percebeu que acontecia alguma coisa diferente, quando estava com ele, porque além de pensar nele até quando não queria, quando estava ao seu lado sentia contrações ventriculares prematuras, como disse alguém em um filme que viu.
Isso tudo era o mais estranho. Desde que Mateus foi embora, sempre que se imaginava com alguém, Julia pensava em Levi. Foi ali, naquele instante, que ela percebeu que não queria ser só amiga dele, por isso eles viviam se deixando e se buscando, por isso que ela caçava por ele em todas as festinhas que ia, e por vários outros motivos que vinham como turbilham na sua cabeça. Então, no calor da emoção, Julia agiu de forma aventureira, ousada e decidida, se aproximou de Levi e o beijou. Para ela, aquele tinha sido melhor amanhecer de sua vida, ao som de 3x4 pôde ficar nos braços do seu grande amigo, por quem foi apaixonada desde o primeiro momento, mas nunca assumiu, nem pra si. 
Desde aquele sábado maravilhoso, ela não conseguia não pensar em Levi, não conseguia dormir sem sonhar com ele nem conseguia ouvir qualquer uma das “músicas deles” sem ter que controlar de forma extremamente forte a vontade de ligar para ele. Por um motivo banal, achou que não deveria ligar no domingo, para não parecer tão carente ou grudenta. Não ligou na segunda por que teve um dia cheio e à noite ele estaria no francês, então, sem aguentar mais seus pensamentos ensurdecedores ligou na terça, antes do intervalo. 
E quem atendeu foi Sofia. Julia estava confusa, atordoada. Como ela atendeu o celular dele se eram 08h30min? Será que ela dormiu na casa dele? Será que ele contou a ela sobre sábado? Esse telefonema fez com que Julia pensasse milhares de hipóteses, tanto positivas, como o caso dele querer vê-la logo e contar tudo, para não iludi-la, quanto negativas, como no caso dele ter se arrependido e ter ido vê-la logo cedo. Julia se sentiu perdida. No momento, só queria que Levi ligasse para ela, mas ele não ligou até agora  e ela  estava  ali, deitada sobre os livros, perdida e sozinha no meio de tantas histórias que não eram a dela.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Julia


Levi tinha prova de Matemática Aplicada a Engenharia Civil às 9:30 e já havia acordado tarde e perdido a aula de Materiais de Construção Civil I, estava no banho quando seu celular tocou. 
- Levi, seu celular tá tocando. 
- Quem é? – Gritou Levi do banheiro. 
- Não sei, é de um número que não está na sua agenda. 
- Atende então. 
E Sofia atendeu. 
- Alô? 
- Eu queria falar com o Levi... 
- Ele tá no banho, quer deixar recado? 
- Dona Rita, pede pra ele ligar pra Julia assim que sair do banho, tá? 
- Não, não é a mãe dele, é a Sofia, mas eu peço sim. 
- Ah, Sofia... desculpa. 
- De boa Julia, até logo. 
Julia passou o dia com aquele diálogo na cabeça. Devolveu o celular da colega e sentiu como se a aula de Introdução às Relações Internacionais tivesse passado em um piscar de olhos, ela nem escutou o que a professora falou sobre os sujeitos das relações internacionais. Assim que a aula acabou resolveu ir pra biblioteca. Lá, baixou a cabeça e resolveu fazer uma rápida retrospectiva do seu relacionamento com Levi.
Recordou-se da chegada deles à cidade, do frisson que eles causaram, de como Samuel despertava o interesse das meninas do colégio e de como, por um acaso do destino, eles ficaram amigos.
Lembrou-se que conheceu Levi através das caronas que Samuel fazia questão de oferece a ela, a partir do momento que Levi ganhou o carro e passou a ir com ele para o cursinho.
Veio à sua memória as características que notou em Levi, logo de princípio, diferentemente de Samuel, que tinha a capacidade de agrupar pessoas ao seu redor, Levi não era muito adepto a grupos, ela percebeu que ele sentava na mesma mesa todo intervalo e com as mesmas pessoas, dois meninos e uma menina. Julia gostava de observar Levi, talvez porque ele fosse mais reservado, mas ao mesmo tempo leve, sério ao mesmo tempo em que transparecia bom humor. Julia gostava disso, dessa dualidade. 
Alvitrou em seguida a primeira vez que conversaram,  foi no carro, depois de quase um mês que ela voltava de carona com os irmãos. Levi havia ligado o rádio e estava tocando Los Hermanos, então Julia falou sem pensar: 
- Sério que você gosta deles? O povo daqui só conhece Anna Julia! 
- Gosto sim. Levi respondeu olhando pelo retrovisor. Já ouviu o CD novo? 
- E eles têm CD novo? 
- Não. - Sorriu desconcertado. - Eu quis dizer o ultimo... 
- Ah sim, ouvi sim. Eu tenho todos. 
- Sério? Eu não tenho o primeiro, não consegui comprar, aquele que tem Primavera... 
- Eu te empresto e você copia. 
- Ah beleza então! 
- Nossa, eu pensei que só o Levi sofria escutando isso hoje em dia... - Interrompeu Samuel.
- Cala a boca Samuel! - Levi falou, já como um bordão. 
- Hahaha, que nada, eu adoro. Escuto sempre. 
- Liga não Julia, o Samuel só curte o que rola nas paradas internacionais. 
- Pelo menos são artistas que não acabaram... 
- Epa Samuel, não pode falar mal dos Los Hermanos viu?! - Brincou Julia. 
- Hahaha, olha que eu deixo de te dar carona viu?! 
- Nem é você que dirige! Não se preocupa Julia, eu te levo! 
Desse dia em diante, eles se falaram todos os dias. Ela levou o CD pra ele copiar e depois eles foram descobrindo outras coisas em comum. A amizade deles foi ficando a cada dia mais forte e no seu aniversário Levi deu à ela o DVD dos Los Hermanos na Fundição Progresso.
Foi desde então que passaram a se encontrar à tarde. Primeiro para ver o DVD, várias e várias vezes. Tentando entender cada música, discutindo interpretações e pesquisando contextos. Com o tempo e a intimidade, foram sendo cúmplices e foram aprendendo a conviver muito bem um com outro. 
Até aí, só coisa boa...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sofia e seu amor livre


Só foi o carro deixar a calçada de Julia que Samuel bombardeou Levi com perguntas.
- Eu sabia que não era só amizade essa coisa com a Julia!
- Era só amizade sim, Samuel.
- Então quer dizer que hoje foi a primeira vez que vocês ficaram?
- Foi sim.
- E todas as tardes que você passava na casa dela?
- O que é que tem?
- Nunca rolou nada?
-Não Samuel! Por que tu insiste nisso?
- Caraca Levi, eu sabia que tu era mole, mas não assim...! Todo mundo sabe que a Julia é louca por ti!
- Nada haver, nós éramos amigos na época do colégio.
- E agora?
- Agora não sei. Deixa que o amanhã cuida do amanhã.
- Quem diz isso é a Sofia...
- É...

Sofia... desde que deixou Julia em casa metade dos seus pensamentos eram ocupados por ela, quer dizer, ela ocupava metade dos seus pensamentos desde que a conheceu. Ele estava sempre preocupado em amá-la e não entendê-la, como sugeriu Vinícius de Moraes.
- Levi! Eu to falando contigo!
- O que é?
- Quer que eu dirija o carro? Tu não presta atenção nem em mim, imagina no trânsito...
- Claro que não, você bebeu. Eu vou prestar atenção, fala aí...
- Você vai contar pra Sofia?
- Vou, lógico.
- Por quê? Você se arrependeu?
- Acho que não...
- Então, vai contar pra quê? Eu prometo que não falo...
- Não se trata disso Samuel.
Interrompeu Levi. Eu estou com ela, então devo dizer a verdade à ela.
- Mas você nem colocou namorando com ela no facebook...
- Grande merda um status de facebook. Não coloquei porque não estou...
- Você não tá namorando com a Sofia?
- Não. Ela não quer namorar comigo...
- Aposto que a Julia quer! Ela é afim de você desde a época do colégio...
- Ah, cala a boca Samuel!

Quando Sofia chegou Levi quis conversar com ela, depois do francês. Na segunda.
- On as besoin de parler. A gente precisa conversar.
- Seulement dans mon lit. Tu me manque tellement. Só se for na minha cama. Tô morrendo de saudade.
- Sérieusement Sofia! Il faut qu'on parle. Serio Sofia, quero falar contigo.
- J'ai déjà dit, seulement dans mon lit! couche avec moi? Já disse, só se for na minha cama! Dorme comigo?
- Não sei se você vai querer dormir comigo...
-Nem eu. Dormir está em segundo plano... Ela sorriu, ele ficou envergonhado, o que não acontecia com frequência.
Levi contou a Sofia sobre Julia, desde o início, quando veio morar na cidade, das tardes no tapete, do beijo na época que Gabi veio visitá-lo, da tensão dela ano passado e do sábado. Sofia escutou tudo calada. E perguntou quando ele se calou:
- E agora?
- Não sei.
- Como assim, não sabe?
-Não sei, você quer “romper” comigo?
- Eu não! Você quer “romper” comigo?
- Claro que não!
- Então pronto, vem pra cá que eu to morrendo de saudades do teu cheiro...
- Espera um pouco Sofia, você não vai dizer nada?
- Sobre a Julia e você?
- É, sobre o que aconteceu...
- Eu não.
- Eu quero que diga!
- Tá bem... Eu não to chateada, se é o que você quer saber, nem estou me sentindo traída, porque você é livre pra se envolver com quem você quiser, afinal, eu já disse não umas 5 vezes pro seu pedido de namoro. Sei que mesmo que namorasse comigo de “papel passado”, isso teria acontecido, por isso sempre defendi a liberdade, inclusive do amor. Eu confesso que estou um pouco insegura, pois achei que por ser suficiente para mim, eu também seria pra você, mas se não é assim, deixa eu fingir e rir, lá lá lá lá.

Ele abraçou e beijou Sofia. Naquele momento, ela era mais do que suficiente, ela era extraordinariamente perfeita. E ele a amou, de muitas maneiras possíveis.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Julia e Sofia


Naquela madrugada, eles conversaram muito. 
Julia contou a Levi como era seu curso, disse estar muito feliz em estudar política, direito e economia. Mas sabia o quanto a parte da sociologia e história era importantes. Ela disse que estava com vontade de fazer francês também, já que ele fazia. 
Levi disse que tinha aprendido muita coisa, que esperava que ela também descobrisse, na hora certa. Disse que tinha conhecido pessoas espetaculares, e que isso tinha sido o mais importante.
- E a Sofia? Você não vai me contar sobre ela?
- Como? Você a conhece?
- Não, pessoalmente. O Samuel que costuma falar que você está com ela.
- O que o Samuel tem haver com minha vida... - Levi pensou alto.
- Nada, oras. É só o fato de ele ser seu irmão e responder com quem você anda quanto eu pergunto... 
- Ah... Você pergunta por mim Julia?
- Claro, apesar de você não perguntar por mim, porque eu também perguntei isso ao Samuel...
O clima ficou mais denso. Levi ficou desconcertado, em silêncio. Ele não perguntava por ela porque não sabia como perguntar, Samuel sempre tira conclusões precipitadas de suas falas.
- Tudo bem, eu não te culpo. Sei que estraguei nossas tardes no tapete - ela sorriu envergonhada -. Eu sinto saudade de você Levi...
- Eu também Julia. Sabe o que é você não puder mais escutar Engenheiros porque te lembra uma pessoa?!
Ele deu uma gargalhada, mas ela ficou séria. 
- Você não queria lembrar-se de mim? 
- Claro que queria. Mas só da Julia que deitava comigo, cantava comigo, brigava comigo, da Julia cheia de si, como diria o Samuel. Não da Julia nervosa, tensa, que só quer saber de termodinâmica. Eu queria essa Julia, que olha nos meus olhos agora, que tem cheiro de flor quando sorri. 
- Levi... eu quero te dizer uma coisa. 
Ela se aproximou dele e quando estava próximo de beijá-lo, disse baixinho, encostando-se aos lábios dele: - Se você sair correndo depois disso, eu nunca mais olho na sua cara.
Eles sorriram. E ficaram juntos até o nascer do sol. Ele sempre teve vontade de agarrá-la como ela fez com ele. Isso era o melhor de Julia, ela parecia com ele de uma maneira bem melhorada. Eles ficaram abraçados, trocaram carícias, risadas, histórias, canções! 3x4 foi a música que escolheram pra memorizar aquele momento, ela tocou uma, duas, três vezes! E juntos, eles cantaram: “Feitos um pro outro, feitos pra durar. Uma luz que não produz sombra... Somos o que há de melhor. Somos o que dá prá fazer. O que não dá pra evitar, E não se pode esconder”.

domingo, 27 de novembro de 2011

ainda Levi e agora também Sofia.

primeira parte

O tempo passou.
 Levi conheceu melhor as moças da cidade e elas gostaram muito de conhecê-lo melhor. Samuel já era "amigo" de muitas, o que facilitou a cicatrização da ferida feita por Gabi.
Julia não estava mais com Mateus e as tardes no tapete eram mais divertidas.
Mesmo sendo de séries diferentes, Levi era dois anos mais velho que ela e estava vivendo a tensão de estar no cursinho, ele preferia estar ali, com  "a garota do segundo ano", como seus amigos se referiam a ela, do que na biblioteca estudando.
Com Julia tudo era leve, até a gramática. Rolava uma química boa, ela sabia de literatura e tinha muitas histórias pra contar. Levi era muito bom em matemática e física, e ali, no espaço geográfico deles tudo corria bem.
No fim do ano, com o resultado do vestibular e os novos ares, Levi mudou muito. A Universidade tem esse dom, de trazer uma liberdade nova para as pessoas, nem todos sabem lidar com o peso da liberdade, Levi soube, ainda bem.
Ele continuou indo visitar Julia, mas não com tanta frequência,  afinal ser estudante de engenharia não é tão simples. Ele sempre achou que difícil era entrar na universidade, mas percebeu que a dificuldade mesmo se dá em sair de lá.
Enfim, as tardes no tapete do ano que chegou não foram tão agradáveis. 
Júlia estava nervosa e insegura demais com o vestibular, ela não queria mais deitar e ouvir música, só queria tirar dúvida de geometria espacial e analítica. Afinal, relações internacionais é um curso bastante concorrido. Levi não conseguia entender como uma menina  "tão certa de si", como dizia Samuel, conseguia ser tão insegura. Era isso que mais atraia e ao mesmo tempo afastava ele de Julia, suas contradições.
Como as tensões foram aumentando, ele achou melhor não ir mais à casa dela, aproveitar só o que eles tinham de melhor. Raramente eles se encontravam em uma festinha, vez ou outra Samuel dizia que eles iam estudar em grupo... Levi pedia, mentalmente, que Samuel pudesse passar essa tranquilidade dele para ela, vai que ela voltava a ser como antes...
Levi fez novos amigos e conheceu novas garotas. Ele deixou de ir com frequência as festinhas do antigo colégio e passou mais tempo na faculdade, não necessariamente estudando.
Levi conheceu Sofia. Ela não era da Engenharia, era do Serviço Social. Ele ficou encantado com ela e logo se envolveram de uma forma que ele não conseguia explicar.
Ele adorava o jeito como ela lidava com a liberdade universitária, como ela se posicionava diante das situações que tinham que enfrentar, como ela era ativa, não ficava só nos discursos. Gostava da compulsão dela por leitura, por literatura clássica, moderna, quadrinhos, revistas. Ela era realmente sábia.
Esse primeiro ano universitário se passou muito rápido, ele percebeu que não se aprende só o que está na sala de aula, mas principalmente no que tem ao redor e ele aprendeu muita coisa com Sofia. 
Sofia era livre demais e ele tinha medo disso. 
As vezes se sentia tradicional demais perto dela, as vezes sentia falta das coisas com legendas, dos is pingados, dos rótulos. 
Sofia não, ela não queria isso. Ela gostava dele, ela era querida por seus amigos e pelos amigos dele. A mãe de Levi já fazia bolo ou um almoço especial quando ela ia visitá-los e Samuel, recém passado em fisioterapia, ficava calado, o que era bem raro, ao vê-la defender seu ponto de vista.
Levi era apaixonado por Sofia, queria que todos soubessem, queria que ela fosse só dele, mas ela não queria isso. 
Sofia não queria ser propriedade de ninguém, não queria aprisionar corações. Ela se divertia com ele, ela achava sensacional aquela família que também não iludia seus filhos com histórias de papai noel ou coelho da páscoa. Ela acha incrível como alguém na engenharia, um dos cursos mais bem pagos do país, tinha uma consciência política como a de Levi. Ela ficava encantada quando ele utilizava sua capacidade de oratória na hora certa, mas ela não queria ser a "namorada" dele. Do jeito que tava, tava bom demais. 
Eles estavam juntos às segundas e quartas pela noite, no francês, onde se conheceram há um ano atrás, ele podia levá-la para dormir na casa dele quando fosse o caso e eles sempre passavam a tarde de sábado juntos, exceto no final do semestre. Pra quê colocar uma coleira de "namorado" no pescoço do rapaz?
Suas amigas falavam:
- Pra que essa mania de liberdade Sofia? Esse excesso vai te matar! Se tu não fechar logo essa gaiola, enquanto ele quer, ele voa viu?!
- Deixe que voe, não é o Lennon que diz que se voltar é porque o conquistei. Se não voltar é porque nunca o possuí?!
- Meu Deus, menina! Quando tu vai arrumar uma menino igual ao Levi?
- Hahaha, desde quando as pessoas são iguais Amanda? E desde quando você acredita em Deus?
E a conversa se perdia no meio da confusão da cabeça delas...
Enquanto isso, Levi sofria. Não sabia se deveria pressioná-la, não sabia se deveria aproveitar essa liberdade ou se viveria só o hoje e deixaria o amanhã cuidar do amanhã, como ela costumava dizer em sussurros ao seu ouvido.
Em uma das tardes de sábado que ficou em casa, pois Sofia havia viajado à um congresso, Levi resolveu ir com Samuel, depois de muita insistência do mesmo, ao aniversário de uma de suas amigas. Samuel, desde que entrou na universidade não encontrava a turma e seria um evento ótimo para reunir tanto a turma de Samuel quanto a de Levi. Lá reencontraram amigos e conversaram bastante, até o sol amanhecer, sobre como cada um havia caminhado na vida. Julia ficou super feliz em encontrar Levi, depois de tanto tempo. Encontrava sempre com Samuel no Restaurante Universitário.
- Levi!
- Oi Julia e ai?
Ela foi mais rápida do que ele imaginava, veio em sua direção e lhe aplicou um abraço apertado. O perfume dos seus cabelos subiu até o nariz dele, junto com a recordação do passado, e um sorriso fugiu de seus lábios.
Todo tempo que havia ocorrido desde a ultima visita de Levi à casa de Julia havia sido extinto no abraço. Ele conseguia sentir o coração dela bater bem forte e a pulsação dos dois corações se confundiam.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Levi

Levi era apaixonado por Gabi. Seu amor de escola. Sua companheira de sonhos e planos. Levi teve que se mudar, afinal não vivemos apenas nossas expectativas, estamos em teias de relações e somos mais dependentes do que queremos.
Gabi ficou, Levi se foi.
Levi conheceu Julia e logo ficaram amigos. Julia e Levi tinham uma sintonia, eram cúmplices, dividiam planos e expectativas. Julia não era Gabi, mas fazia com que ele se sentisse bem, Levi não estava completo, mas também não estava só.

Tudo aconteceu muito rápido.
Julia estava sempre ali, era ao lado dela que ele dava risada. Era no ouvido dela que despejava queixas e foi com ela que ele começou a sonhar e isso era estranho. Na verdade, tudo era meio estranho com eles. Como disse Humberto Gessinger, "seria mais fácil fazer tudo como todo mundo faz. [...] Mas nós dançamos no silêncio, choramos no carnaval. Não vemos graça nas gracinhas da TV, morremos de rir no horário eleitoral. [...]". Eles realmente estavam em outra frequência, e isso começou a deixá-lo assustado.
Um belo dia, ele recebe um email de Gabi, ela viria visitá-lo. Ele correu pra dividir isso com alguém. Com Julia. Ao chegar correndo, foi despejando informação para ela. Assustada, ela recebeu tudo em silêncio.
O dia continuou como era de costume.
Passaram o dia ouvindo sua trilha sonora, deitados no chão da casa da moça: Engenheiros do Hawaii, Los Hermanos, Nando Reis... Em um dos momentos de gracinhas, onde Levi sempre arrumava uma forma de implicar com Julia eles se entreolharam e se beijaram. 

Levi saiu correndo. Ele sabia que não deveria ter feito aquilo. Ele amava Gabi e era só amigo de Julia. Ele repetia isso na cabeça, enquanto andava apressado pelas ruas até chegar em casa.
Gabi finalmente chegou.
Levi havia preparado todo um cronograma, para apresentá-la a tudo que agora fazia parte dele. Menos Julia, devido ao ultimo acontecimento, ela ficaria para outra visita. O dia foi feliz e romântico. Na hora de levá-la a rodoviária, com aquela tensão que toda despedida tem, ela puxou o diálogo:
- Levi, tenho que te contar uma coisa.
- Fala Gabi, tô te ouvindo.
Ele tentou beijar a testa dela, mas ele se esquivou. Ele ficou tenso e os cabelos da sua nunca arrepiaram.
- Levi, é que... eu conheci uma pessoa.
- Eu também conheci muitas pessoas Gabi. Levi desconversou, ele não tinha planejado esse diálogo para a rodoviária, só longos abraços de despedida.
- Não Levi, é sério. Eu conheci uma pessoa e eu tô com ele. Eu tô apaixonada por ele.
- Gabi... E a gente?
- Eu fiquei sozinha lá Levi, sozinha! Não tinha como aguentar! Eu sei que tinha que ter te dito logo mas...
Ele não ouviu mais nada. A cabeça dele girava. Ele se virou e deixou ela lá, falando desesperadamente. Ela não gritou nem chorou, ela só se calou, sentou e esperou seu ônibus, enquanto via seu amor de escola se afastar, andando de uma forma assustada.
Levi não ficou bem. Ele nem sabia mais o que pensar. E assim permaneceu, por longos dois meses que passaram-se como anos.
Em casa, no chão do quarto, ouvindo ACDC, Metallica, Pink Floyd, porque não conseguia ouvir nada mais leve, afinal, isso ele fazia com Julia...
Julia! Meu Deus, ele havia esquecido dela. Não sabia como se reaproximar... Resolveu se aproveitar de seu irmão, Samuel.
- Samuel, beleza?
- O que é que tu quer Levi?
- Qual é! Não posso mais conversar?
- Poder até pode, mas você não quer. Desde que a Gabi veio você tá na maior piração, só fala quando te perguntam algo...
- É eu sei... 
- Vocês terminaram? Você e a Gabi?
- Foi.
- Desculpa cara, mas é melhor assim. Eu te disse que namorar a distância era sem futuro. Por isso terminei com a Virgínia antes da gente se mudar... Mas me diz, o que é que você quer de mim?
- Conselho é que não é! Hum, você tem visto a Julia?
- Claro né, a gente estuda junto!
- Como ela tá? Desde antes da Gabi vir pra cá a gente não se fala... Já se passaram mais de dois meses que não sei dela.
- Ela tá bem cara, como sempre. Você sabe como é o jeito da Julia, muito independente, muito certa de si... Ela continua a mesma.
- Tô afim de falar com ela...
- Ah, pois vem comigo ao aniversário do Arnaldo, ela vai tá lá, toda galera da sala vai e você tá precisando mesmo sair do chão do teu quarto, tá parecendo um tapete!
- Cala a boca. Disse Levi, virando-se e saindo, com um sorriso no rosto.
No aniversário do Arnaldo, ele encontrou Julia e eles conversaram. Levi se desculpou pelo beijo dos meses atrás e contou o que aconteceu com Gabi.
Julia também tinha novidades. Ela estava de rolo com um cara da sala de Levi, o Mateus. Levi ficou sem jeito quando Mateus veio "roubá-la" para uma dança. Sentiu que ele também estava roubando sua amiga, sua companheira-tapete.
[...]

continua...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sorrisos e não ditos.

Em um daqueles momentos de despedida, onde as pessoas se despedem um milhão de vezes:

- Então tchau. Disse Julia, abraçando Samuel mais uma vez.
Samuel entra no carro e espera o irmão, entrar também. O que não acontece. Do lado de fora lá está ela, Julia, sem jeito de se aproximar de Levi, que fica em pé, ainda encostado no carro.
Samuel resolve dá aquela força, da janela do carro:
- Por que você não fala logo Levi?
- Falar o que? Levi retruca, com sua conhecida maneira de se defender das invasões alheias.
- O que você sente pra Julia. Por que você se faz de forte? Não tá vendo a cara de boba dela olhando teu sorriso?
Os dois se envergonham e olham cada um para os joelhos.
- Tchau. Brada Levi, entra no carro e sai. Com o sorriso no rosto.
Julia fica no portão, imaginando o que Levi teria a dizer e lembrando-se do sorriso dele, também com um sorriso no rosto.


sábado, 12 de novembro de 2011

Tô com sintomas de saudade, tô pensando em você

Eu resolvi contar uma história fictícia, faz muito tempo que só escrevo realidades, então hoje, quis usar do imaginário pra contar fatos reais imaginados :) ...


Foi uma sexta difícil. Ela estava cansada de tudo dar errado. Havia acordado atrasada para o trabalho, não escutou uma palavra das que foram professadas pelo diretor, não se deu ao menos o trabalho de entregar o relatório da atividade que fiscalizou no dia anterior e nem corrigiu os erros que a revisão evidenciou no seu artigo para o jornal do dia seguinte. Ela estava cansada. Só conseguia lembrar da noite anterior.

Diferentemente das outras vezes, em que os atos apaixonados lhe tiravam o sono e lhe distraiam durante o dia, como estava acontecendo agora, e lhe deixava com um sorriso bobo, o que não chegava nem perto da cara que expressava no momento, ela não conseguia resistir ao seus pensamentos.

Na quinta, depois de uma reunião demorada, ela e a equipe haviam feito um projeto, que se conseguisse ser efetivado, seria a melhor forma de encerrar o trabalho árduo do ano. Contudo, a efetivação não foi do jeito esperado. Apesar de aprovado, o conselho colocou uma série de pré-requisitos para que, só assim, ele fosse realmente efetivado. Apesar de uma vitória não completa, a "derrota" dela foi outra.

Em um desses corredores, onde se respira ansiedade, argumentos, jogo de cintura e persuasão, ela teve que lidar com o pior deles: a saudade. Depois de vários meses, ela encontrou ele. Ele, que a fez perder o sono, que prometeu, sem proferir palavras, algo intenso, sem esteriótipo, sensível, sincero.

Ele também não tinha tido sorte na sala de reunião. Sua proposta foi totalmente adversa a esperada pelo conselho. Ainda assim, ele estava cheio de si, confiante na sua proposta e esperançoso. Ah, aqueles olhos esperançosos, que muitas vezes tiravam o sono dela... Cruzar com ele, ali, após uma quase vitória e depois da derrota dele foi um verdadeiro desastre.

Ela precisava dele, ele só queria estar ao lado dela. Abraçá-lo, confortá-lo, mimá-lo. Ao mesmo tempo que ele desejava pegá-la no colo, deitá-la no solo e fazê-la feliz. Mas não podiam. Pois maior que a vontade que um sentia do outro, era o medo que os dois alimentavam no coração.

"Eles se amam, todo mundo sabe mas ninguém acredita. Não conseguem ficar juntos. Simples. Complexo. Quase impossivel. Ele continua vivendo sua vidinha idealizada e ela continua idealizando sua vidinha. Alguns dizem que isso jamais daria certo. Outros dizem que foram feitos um para o outro. Eles preferem não dizer nada. Preferem meias palavras e milhares de coisas não ditas. Ela quer atitudes, ele quer ela. Todas as noites ela pensa nele, e todas as manhãs ele pensa nela. E assim vão vivendo até quando a vontade de estar com o outro for maior do que os outros. Enquanto o mundo vive lá fora, dentro de cada um tem um pedaço do outro. E mesmo sorrindo por ai, cada um sabe a falta que o outro faz. Nunca mais se viram, nunca mais se tocaram e nunca mais serão os mesmos. É fácil porque os dias passam rápidos demais, é dificil porque o sentimento fica, vai ficando e permanece dentro deles. E todos os dias eles se perguntam o que fazer. E imaginam os abraços, as noites com dores nas costas esquecidas pelo primeiro sorriso do outro. E que no momento certo se reencontram e que nada, nada seja por acaso."*

E assim, ela fica cheia de saudade, pois existe uma diferença entre sentir a falta e sentir saudade. Saudade é pra quem sente amor. Sentir falta é pra quem sente vazio. Só um buraco. Na verdade, ela também sentia medo de ter saudade, vai que ele só sentia falta dela...

* Parágrafo de autoria da Tati Bernardi

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