quarta-feira, 18 de maio de 2011

Outro por Dentro

"'Aquele ali tem outro por dentro.' Ela disse isto com tanta amargura na voz que o ambiente tornou-se gélido. Não era um comentário, era uma sentença. O cara tinha outro por dentro. Quem estaria escondido em seu corpo? Um alien? O demo? Sem dúvida, algum cafajeste.

Certas expressões nascem carregadas de preconceito e só levamos em conta seu lado pejorativo. Se alguém diz que você tem outro por dentro, está dizendo que você é mascarado, desonesto, que representa um papel que não é totalmente verdadeiro. Porém, pra variar, acho que a questão merece ser encarada com mais flexibilidade. Você, eu e a população mundial – trilhões no planeta – também temos outros por dentro, e não somos mascarados nem desonestos: somos humanos.

Onde foi parar a nossa autenticidade? Segue exatamente onde está. Somos autênticos batalhadores, autênticos cidadãos do bem, porém esta é a versão oficial, é a propaganda que divulgamos para o mercado externo, o nosso melhor. Somos verdadeiramente pessoas maravilhosas – ou, ao menos, pessoas muito bem intencionadas. Pagamos os impostos em dia, somos cordiais, lembramos dos aniversários dos amigos, não compactuamos com a brutalidade dos dias e telefonamos para nossas avós para lhes aliviar a solidão. Mas há outros em nós. Há vários. Há todos aqueles que foram abafados, que não servem aos nossos objetivos, todos aqueles com que, muitas vezes, nem simpatizamos, mas que existem. Seguem sendo nós, ainda que não batizados e sem firma reconhecida em cartório.

Na cama de um hospital, há em nós alguém saudável. Ao vencermos um campeonato, há em nós um fracassado. Apaixonados, há em nós um cético. Ao saltar de pára-quedas, há em nós alguém que teme. No êxtase, há em nós um melancólico. Ao nos desresponsabilizarmos sobre nosso destino, outro lá dentro de nós assume a direção. Não estamos sós.

Há numa Maria uma Sheila, há num Celso um João, há numa Beatriz uma Sônia, e numa Verônica uma Verinha. Há em todas nós uma Leila Diniz, como já cantou Rita Lee. E sou capaz de apostar que há uma Rita Lee em varias beatas.

Por que isso seria falsificação? Há em mim um Woody Allen, uma Marília Gabriela, uma Lya Luft, um Nelson Motta, uma Madre Tereza e uma Rita Cadilac, e sou eu mesma, íntegra e inteira. Quantos rapazes cordiais não se transformam em homens das cavernas quando calçam uma chuteira e entram em campo? Quantas mulheres singelas não viram competitivas e agressivas numa mesa de canastra? Hitler tinha um músico sensível dentro dele. Pinochet traz um pai de família guardado no peito. Nenhum prejuízo para nossa avaliação: seguimos sabendo quem eles são. E quem somos."

Martha Medeiros

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