segunda-feira, 27 de março de 2017

Mensagens Atemporais

Em 2012 eu li um livro chamado A Mulher do Viajante no Tempo, da autora americana Audrey Niffenegger. O livro trata do romance entre Henry e Clare, mas mais do que isso fala sobre viagem no tempo. “Henry sofre de um distúrbio genético raro. Seu relógio biológico dá uma guinada para frente ou para trás e ele então é capaz de viajar no tempo. As viagens são causadas por acontecimentos estressantes, os deslocamentos são imprevisíveis e Henry é incapaz de controlá-los. Neste livro, a autora mostra com muita sensibilidade, inteligência e bom humor que o verdadeiro amor é capaz de transpor todas as barreiras - inclusive a mais implacável de todas: o tempo.”.

Esse livro se tornou um dos meus favoritos e a temática de “viagem no tempo” se tornou uma das minhas categorias prediletas no que se refere a leitura. Mesmo que os personagens não sejam viajantes no tempo, como o Henry, muito me agrada quando o autor transita entre o presente e passado como acontece, por exemplo, em Um Dia, do autor britânico David Nicholls.

Percebi que desde então passei a acreditar na teoria que diz que o passado, o presente e o futuro são simultâneos. Eu não sou a única pessoa que pensa assim. Esta ideia é defendida por Bradford Skow, professor de filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que considera que a ideia de que o tempo flui como um rio não é correta.

Infelizmente eu não tenho conhecimento suficiente para defender essa teoria, também não sou ingênua o suficiente para acreditar que como Henry outras pessoas tenham esse distúrbio genético tão raro ou sejam tão rápidas quanto o Flash para transitar entre o passado, o presente e o futuro. No entanto, creio que por termos conhecimento disto no futuro e devido a simultaneidade do tempo, nós, de alguma forma, sabemos disso hoje.

Como não podemos interferir no curso do tempo, por saber que alterações ocorridas em qualquer das épocas altera o nosso destino (vejam o filme Os Agentes do Destino, é muito bom!), nós arrumamos uma maneira de burlar o sistema do tempo sem maiores alterações. Isso se dá pelas anotações, fotos, lembranças que guardamos de terminados períodos.

Sempre gostei de escrever mensagens a mim mesma que transpusessem a barreira do tempo, escrevia do meu eu de hoje para o meu eu de daqui a um mês ou daqui a um ano. Incrivelmente essas coisas sempre funcionavam, essas mensagens me faziam sentir melhor ou me davam uma perspectiva de que a mudança sempre vem, independente da fase em que estamos.

Sou a pessoa, dentre os meus amigos, que mais tem diários/agendas, que mais revisa fotos antigas, acho que estou sempre buscando me conectar com o meu eu de outro espaço temporal simultâneo.

De forma carinhosa eu tentei fazer o mesmo com alguém especial, escrevendo mensagens atemporais que deveriam ser abertas em determinados momentos, mas que não impediriam de elas serem relidas sempre que necessário. Não sei se a pessoa chegou a abrir todas as mensagens ou se todas as horas de se ler as mensagens já se sucederam, mas confesso que criei uma expectativa sobre isso, afinal, apesar de ter escrito algo para um terceiro, o meu eu, do momento em que a mensagem é aberta, também é atingido pelas palavras que por mim foram escritas em outro tempo, em outra circunstância.

Hoje eu estava me sentindo meio cabisbaixa e achando que sozinha eu não conseguiria mudar tal condição. Um amigo me aconselhou ouvir músicas que trouxessem sentimentos bons, então, abrindo a sessão Neste Dia, do Facebook, eu encontrei diversas opções deixadas por mim mesma para o meu eu de hoje. Sem dúvidas, a mensagem escolhida pra Jéssica de 2017 foi deixada pela Jéssica de 2011, com a canção Muita Calma Nessa Hora, do Leoni.

Achei que a mensagem me serviu muito, afinal costumo tomar decisões baseadas em impulso e tenho pelo menos desejado fazer diferente. Muita calma nessa hora, há um milhão de você passando por várias situações adversas simultaneamente, se você se concentrar bem, você pode se conectar com o(s) seu(s) outro(s) eu(s) e resolver duas questões com uma mensagem só.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Astros

Há alguns anos-luz percebi que eu não precisaria ser Satélite de ninguém para ser querida, aceita ou respeitada, dessa forma, eu me tornei uma pessoa mais independente. Todos os corpos celestes concordam que é interessante ter Satélites, mas os misteriosos Cometas compõem um grupo particularmente instigante. Então, por ter um gosto inclinado a desviar-se da normalidade do universo e por acreditar que a luz do Sol me bastava me tornei um Cometa. A princípio a intenção foi fugir do senso comum, depois enxerguei a possibilidade de explorar as regiões do cosmo sem compromissos e escapar das órbitas pré-definidas.

Isso beneficiou muito minhas relações. Eu conseguia ser uma boa companhia sem ser grudenta, eu frustrava os astros egocêntricos, mas implantava neles a reflexão de que é natural gostarmos de ser Planetas, ter Satélites, sejam naturais ou superficiais, ao seu redor, ou ainda ter um Sol, contudo, consegui mostrar a eles que as relações são mais trocas do que só movimentos de rotação e/ou translação.

Vivi de lá para cá, pensando, analisando, sendo eu mesma e construindo relações baseadas na responsabilidade do contato. Tendo como filosofia de vida "tu se tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" e sendo consciente de que quanto mais eu cativasse, mais “presa” eu estaria àqueles astros, então evitava ao máximo colisões que entrassem para a história da astronomia, priorizando passagens rápidas, onde minha cauda iluminava o local. Não vou mentir, algumas vezes me ocorreu a vontade de ter uma rota fixa e previsível, mas os movimentos da vida, esse gigantesco sistema solar, me fizeram um Cometa e a cada ano-luz eu gostava mais de mim.

No entanto, em uma de minhas rotas descomprometidas enxerguei um Planetinha, que chamou minha atenção pela quantidade de Satélites que tinha ao seu redor. Apesar de muitos nenhum deles era tão iluminado quanto esse corpo gelado que vos fala. O Planeta se encantou por mim e vivemos o caso de amor mais lindo do Universo.

O problema é que o Planeta, sempre acostumado a ter astros ao seu redor, não conseguia entender como o único contato que teria comigo seria em forma de colisão. Nos primeiros meses, foi assustador, afinal como desejar tanto um encontro se toda vez que ele acontece deixa marcas permanentes nos dois?

O Planeta aprendeu a enxergar suas crateras, não as temer e ainda as lhe admirar. Por sua vez, entendi que mesmo que eu me desfizesse a cada contato, os choques ainda valiam a pena, já que uma parte de mim ficava no Planeta e, dessa forma, nossos corpos eram alterados a cada encontro.

No entanto, notei que o Planeta começou a fazer um movimento em torno de um Sol, tal deslocamento ainda desconhecido (ou despercebido) por mim. Senti um medo tremendo! Medo das nossas rotas não se cruzarem, medo dessa locomoção não permitir o contato, medo de ser só mais um astro que vaga enquanto as estações do Planeta estão se definindo...

O Planeta me assegurou que isso era normal, acontecia anualmente com mais frequência do que eu poderia imaginar, garantiu ainda que isso não iria afetar em nada as nossas colisões. Mesmo assim eu fiquei receosa, principalmente ao perceber que não era do meu feitio sentir falta, especialmente de um simples Planeta, afinal, como um Cometa, eu vinha percorrendo todos os espaços possíveis na galáxia.

Foi aí que me ocorreu o seguinte pensamento: “quanto mais em volta deste Planeta eu transitar, mais me tornarei um Satélite, daqueles sem graça, que existiam aos milhões sem uma iluminação descente ao redor do Planeta”. Diante disso, eu resolvi andar. Passei a procurar poeira lunar, conheci os anéis de Saturno, senti o calor do Sol por conta própria e explorei o espaço sideral.

Lá no lugar dele o Planeta sentia a falta daquele ser viajante e não entendia o porquê de as trajetórias percorridas terem se tornado tão longas, se o Cometa sabia que ele continuava o mesmo astro, no mesmo lugar.

Em uma das minhas viagens resolvi ver como as estações estavam ocorrendo por aquele Planeta tão querido. Ao entrar em sua órbita avistei um Planeta frio e sozinho. Chocando-me com ele eu perguntei: "Qual o problema? Onde estão suas voltas em torno do Sol?!”. O Planeta me explicou: "Não há Sol que esquente da mesma forma que a sua cauda faz ao cruzar a atmosfera.”.

Não há nada mais carente do que um Cometa que precisa se chocar por aí e não há nada mais emocionante para um Planeta do que um acontecimento que altere seu status quo. O encontro dos dois é uma coisa mágica, todas pessoas do mundo param para ver.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Nada mais do que datas

"– Pra que servem as datas?
– Para nada.
– E por que as pessoas insistem em guarda-las na memória?
– Seres humanos são idiotas, eles são os melhores do universo em cultivar as próprias decepções. É bom que você aprenda isso desde cedo."

Desde o começo eu sabia que essas coisas poderiam acontecer. Porque a vida é muito dinâmica pra você guardar um dia todo mês. Já tem que lembrar da data de aniversário da mãe, do pai, dos irmãos. Tem que lembrar o dia do seu próprio aniversário! Como se não bastasse, tem que lembrar a data do aniversário das pessoas que você gosta: amigos, parentes, romances... Entretanto, mesmo assim a gente se liga em datas como: o primeiro beijo, o pedido de namoro, a primeira vez... Depois vem dia do noivado, dia do casamento, nascimento dos filhos, etc, etc, etc...

O mais comum deveria ser se a gente só ficasse feliz de lembrar que fazem "x" anos do acontecimento "y". Que nos satisfizessemos com as lembranças que temos daquela data. Contudo, não é assim que acontece.

Temos o costume de amanhecer o tal dia "x" esperando que o outro também esteja esperando algo desse dia. Ficamos frustradas quando esquecem nosso aniversário, fazemos birra se ele não lembra do ano de namoro e ele dorme no sofá se esquecer o dia do casamento!

E por que isso acontece?

Sinceramente, eu não sei. Mas tenho algumas suspeitas.
1. Trata-se de mais uma vaidade do ego. Precisamos de alguém que fale o que desejamos ouvir. Que aquela noite foi especial, que aquele acontecimento foi marcante, que você é única no meio dessas 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta;
2. É só mais uma ilusão saudosista que tenta reviver os mesmos sentimento que existiram em "x" .
Faz parte da eterna insatisfação humana.
3. Somos egoístas. Assim como na primeira hipótese, nós pensamos que queremos dividir algo com o outro, mas não, queremos que ele queiria nos agradar. Precisamos estar no centro do pensamento do outro, das lembranças do outro, do presente do outro.

No meu caso, foi um pouco dos três. É claro que eu estava bem intencionada. Lembrei dos 16 meses assim que datei a primeira folha de hoje, todavia, já muito pronta pra fugir desse mimimi, não falei nada. Eu não queria que datas fossem importantes, lembra? Depois listei mentalmente as outras datas importantes do mês. 14/11, 23/11... e me convenci que se ele lembrasse da ultima, tava tudo OK.

O ruim mesmo foi passar o dia tão longe. Ver de relance e trocar uns "eu te amo" enrolados, falar rápido demais no telefone, falar no whatsapp até se chatear...

Depois disso, de quando sua consciência já ta cansada, quando você já ficou com ciume do dia dele ter sido tao cheio que ele nem teve tempo de te mandar um oi (mesmo tendo te ligado, numa ligação que a essa altura você vai achar o defeito), você começa a maquinar sobre o desleixo dele com vocês, com a relação.

Talvez ele nem seja tão vilão assim, mas foi assim que nos ensinaram, não foi? Que tem um certo e um errado. Que provavelmente você é a certa. Aí você aceita a carapuça de moça apaixonada que não é valorizada e começa o mimimi. Ele não lembra de nada, ele não se importa com nada, ele nem sabia que dia era hoje, ele não me ama.

Não. Não sejamos assim. Nós somos as únicas responsáveis pelas expectativas que colocamos na vida. As pessoas já têm os seus próprios forninhos pra segurar e, principalmente por ama-las, nós temos que engolir o mimimi, erguer a cabeça e, mais uma vez recordar tudo de bom que se passou de "x" até aqui. Além de, dar mais uma chance pro caboco: "mas se ele esquecer meu aniversário, ele vai se ver comigo!". 

(per)seguidores