domingo, 17 de junho de 2012

A estagiária

Ela fazia estágio duas vezes por semana em uma instituição filantrópica em uma cidade vizinha. Odiava aquele estágio, por vezes ia chorando dentro do ônibus. Estava passando por dias realmente ruins. Talvez a instituição do estágio, a supervisora e o estágio em si, provavelmente fossem ótimos. Ela é que estava inventando um monte de cruzes para carregar...

Um dia olhou pela janela num ponto em que muitos desciam para uma conexão e viu um sujeito parado. Gostou dos olhos dele, lembrou na hora dos famosos "olhos de ressaca" que Capitu tinha em Dom Casmurro, do Machado de Assis. Ele tinha aquele olhar perdido, meio sonolento, que aparentava calma mesmo na hora de um aperto. O ônibus seguiu seu trajeto e seus pensamentos voltaram à depressão de voltar àquela instituição sem ter a menor noção do que deveria fazer. 

Passados dois dias voltou a pegar o ônibus e percebeu que o sujeito estava lá dentro! Ele pegava o mesmo ônibus, mas descia antes dela. Ele estava sempre sério, às vezes com fones no ouvido, às vezes lendo alguma coisa... Nunca olhando para os lados. Nunca olhando para as pessoas, muito menos para ela.

Um dia ele desceu e ela se distraiu a olhá-lo. Ele percebeu, pois a olhou de fora com expressão um pouco desconfortável. Ela mais do que depressa desviou o olhar e procurou ser mais discreta. Não, aquilo nem de longe era uma paquera, tanto que sua principal preocupação era que ele nunca percebesse seus olhares.

Estava gostando de passar aqueles minutos, que outrora passavam dolorosamente, a imaginar o que ele estaria lendo, o que ouvia e no que pensava enquanto olhava demoradamente pela janela.

Ele era um homem alto e aparentemente sério. Não era o tipo de homem que ela gostava, todavia quando ele estava com a barba por fazer ela se demorava mais ao olhá-lo, ela gostava da barba. E assim ela foi desde abril até meados de setembro, todas as manhãs olhando-o e sempre cuidando para que ele não percebesse.

Próximo ao fim de setembro se deu conta de que o estágio estava acabando. E consequentemente, as viagens pela manhã estavam acabando. Ela não voltaria a ver aquele sujeito alto e sério, que sempre ouvia músicas que ela não sabia quais eram e lia coisas que ela não sabia se comoviam alguém. Ela não gostou da ideia de ter passado quase seis meses observando uma criatura para depois nunca mais vê-la. Resolveu que algo deveria ser feito, então contou a situação aos seus amigos. 

Foi uma agitação só. É claro que seus argumentos de que não era mais do que curiosidade não convenceu as suas amigas, que ficaram eufóricas com a história. Uma delas, que parecia ser um pouco mais sensato, fingiu que entendeu seus argumentos, do mesmo jeito que sempre havia fingido ser um pouco mais sensata.

Pensaram juntas em algo que ela deveria fazer. 
- Devo dizer "bom dia?" 
- Nem pensar. - disse a amiga.
- Sentar-se ao lado dele? 
- Não, não é uma pressão física, moral e psicológica.
- Fingir uma convulsão e se jogar em espasmos sobre seu colo? 
- Hum... não, não. Melhor não.
- Assim fica difícil...

Passaram mais de uma noite pensando. O tempo estava passando e, em breve, ela não o veria mais. Até que a amiga, que fingia ser sensata e fingiu entender a inocência dos motivos dela, teve uma brilhante ideia: Antes do Amanhecer. É aquele filme, dos dois jovenzinhos românticos que viajam de trem e se apaixonam e têm até o amanhecer do dia para ficarem juntos. Era só isso. A ideia constituía-se em entregar o filme para cara. Simples assim, sem bom dia nem sentar-se ao lado dele nem convulsão. A amiga fez uma cópia do filme.

No último dia de estágio ela escreveu seu e-mail na contra capa e foi para sua última viagem decidida a falar com o tal sujeito sério. Sabe-se lá o que havia acontecido naquele dia, mas o fato é que não havia ninguém sentado ao lado dele, nem na frente dele, nem atrás dele... Ela se encolheu num banco à frente. Abriu um livro. Fingiu ler, mas era incapaz. Naquele momento seu coração já havia percorrido todo seu esôfago e estava chegando feliz da vida na garganta. 

Antes que o sujeito descesse do ônibus e seu coração se atirasse de sua boca, se virou e tentou um sorriso torto. Falou meia-dúzia de palavras que não faz a mínima ideia do que seja e entregou o filme a ele. Ele agradeceu (ela não gostou da voz dele) e sorriu (um sorriso que a assustou pois nunca havia imaginado como seria seu rosto quando sorria). Despediu-se, desceu do ônibus e ela ficou ali.

No que deu tudo isso? Em nada. Eu sei que é frustrante. Mas ela é só uma estagiária. 

Eles chegaram a trocar alguns e-mails a partir de novembro, quando abriu sua caixa de mensagens e leu o e-mail educado de um sujeito de nome estranho que dizia ser o cara do ônibus. Ficou sem graça, com um sorriso no rosto, pois havia imaginado todos os nomes do mundo para o sujeito sério, menos aquele composto arrebatador. Que lindo é seu nome... Gostaria de poder contar, mas seria expor o rapaz e seu código de ética não permite isso.

Até hoje ela guarda com todo sigilo como ele se sentiu ao receber aquele filme ótimo de uma desconhecida dentro de um ônibus. Não se sabe se ele disse em algum e-mail o que achou do filme, mas os dois nunca mais se viram.

Ela sempre se lembra dele quando entra num ônibus, e às vezes até olha a sua volta esperando vê-lo lendo um livro ou com fones de ouvido... Se o visse iria sorrir de verdade dessa vez, pois ficaria verdadeiramente feliz por encontrá-lo. Deve ser uma pessoa interessante, apesar de sério.

A estagiária aprendeu a delícia que é sentir seu coração percorrendo todo seu esôfago e o desespero de ter que agir antes que ele alcance a garganta e salte feliz da vida pela boca. Estagiários existem pra aprender...

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