sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Astros

Há alguns anos-luz percebi que eu não precisaria ser Satélite de ninguém para ser querida, aceita ou respeitada, dessa forma, eu me tornei uma pessoa mais independente. Todos os corpos celestes concordam que é interessante ter Satélites, mas os misteriosos Cometas compõem um grupo particularmente instigante. Então, por ter um gosto inclinado a desviar-se da normalidade do universo e por acreditar que a luz do Sol me bastava me tornei um Cometa. A princípio a intenção foi fugir do senso comum, depois enxerguei a possibilidade de explorar as regiões do cosmo sem compromissos e escapar das órbitas pré-definidas.

Isso beneficiou muito minhas relações. Eu conseguia ser uma boa companhia sem ser grudenta, eu frustrava os astros egocêntricos, mas implantava neles a reflexão de que é natural gostarmos de ser Planetas, ter Satélites, sejam naturais ou superficiais, ao seu redor, ou ainda ter um Sol, contudo, consegui mostrar a eles que as relações são mais trocas do que só movimentos de rotação e/ou translação.

Vivi de lá para cá, pensando, analisando, sendo eu mesma e construindo relações baseadas na responsabilidade do contato. Tendo como filosofia de vida "tu se tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" e sendo consciente de que quanto mais eu cativasse, mais “presa” eu estaria àqueles astros, então evitava ao máximo colisões que entrassem para a história da astronomia, priorizando passagens rápidas, onde minha cauda iluminava o local. Não vou mentir, algumas vezes me ocorreu a vontade de ter uma rota fixa e previsível, mas os movimentos da vida, esse gigantesco sistema solar, me fizeram um Cometa e a cada ano-luz eu gostava mais de mim.

No entanto, em uma de minhas rotas descomprometidas enxerguei um Planetinha, que chamou minha atenção pela quantidade de Satélites que tinha ao seu redor. Apesar de muitos nenhum deles era tão iluminado quanto esse corpo gelado que vos fala. O Planeta se encantou por mim e vivemos o caso de amor mais lindo do Universo.

O problema é que o Planeta, sempre acostumado a ter astros ao seu redor, não conseguia entender como o único contato que teria comigo seria em forma de colisão. Nos primeiros meses, foi assustador, afinal como desejar tanto um encontro se toda vez que ele acontece deixa marcas permanentes nos dois?

O Planeta aprendeu a enxergar suas crateras, não as temer e ainda as lhe admirar. Por sua vez, entendi que mesmo que eu me desfizesse a cada contato, os choques ainda valiam a pena, já que uma parte de mim ficava no Planeta e, dessa forma, nossos corpos eram alterados a cada encontro.

No entanto, notei que o Planeta começou a fazer um movimento em torno de um Sol, tal deslocamento ainda desconhecido (ou despercebido) por mim. Senti um medo tremendo! Medo das nossas rotas não se cruzarem, medo dessa locomoção não permitir o contato, medo de ser só mais um astro que vaga enquanto as estações do Planeta estão se definindo...

O Planeta me assegurou que isso era normal, acontecia anualmente com mais frequência do que eu poderia imaginar, garantiu ainda que isso não iria afetar em nada as nossas colisões. Mesmo assim eu fiquei receosa, principalmente ao perceber que não era do meu feitio sentir falta, especialmente de um simples Planeta, afinal, como um Cometa, eu vinha percorrendo todos os espaços possíveis na galáxia.

Foi aí que me ocorreu o seguinte pensamento: “quanto mais em volta deste Planeta eu transitar, mais me tornarei um Satélite, daqueles sem graça, que existiam aos milhões sem uma iluminação descente ao redor do Planeta”. Diante disso, eu resolvi andar. Passei a procurar poeira lunar, conheci os anéis de Saturno, senti o calor do Sol por conta própria e explorei o espaço sideral.

Lá no lugar dele o Planeta sentia a falta daquele ser viajante e não entendia o porquê de as trajetórias percorridas terem se tornado tão longas, se o Cometa sabia que ele continuava o mesmo astro, no mesmo lugar.

Em uma das minhas viagens resolvi ver como as estações estavam ocorrendo por aquele Planeta tão querido. Ao entrar em sua órbita avistei um Planeta frio e sozinho. Chocando-me com ele eu perguntei: "Qual o problema? Onde estão suas voltas em torno do Sol?!”. O Planeta me explicou: "Não há Sol que esquente da mesma forma que a sua cauda faz ao cruzar a atmosfera.”.

Não há nada mais carente do que um Cometa que precisa se chocar por aí e não há nada mais emocionante para um Planeta do que um acontecimento que altere seu status quo. O encontro dos dois é uma coisa mágica, todas pessoas do mundo param para ver.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Nada mais do que datas

"– Pra que servem as datas?
– Para nada.
– E por que as pessoas insistem em guarda-las na memória?
– Seres humanos são idiotas, eles são os melhores do universo em cultivar as próprias decepções. É bom que você aprenda isso desde cedo."

Desde o começo eu sabia que essas coisas poderiam acontecer. Porque a vida é muito dinâmica pra você guardar um dia todo mês. Já tem que lembrar da data de aniversário da mãe, do pai, dos irmãos. Tem que lembrar o dia do seu próprio aniversário! Como se não bastasse, tem que lembrar a data do aniversário das pessoas que você gosta: amigos, parentes, romances... Entretanto, mesmo assim a gente se liga em datas como: o primeiro beijo, o pedido de namoro, a primeira vez... Depois vem dia do noivado, dia do casamento, nascimento dos filhos, etc, etc, etc...

O mais comum deveria ser se a gente só ficasse feliz de lembrar que fazem "x" anos do acontecimento "y". Que nos satisfizessemos com as lembranças que temos daquela data. Contudo, não é assim que acontece.

Temos o costume de amanhecer o tal dia "x" esperando que o outro também esteja esperando algo desse dia. Ficamos frustradas quando esquecem nosso aniversário, fazemos birra se ele não lembra do ano de namoro e ele dorme no sofá se esquecer o dia do casamento!

E por que isso acontece?

Sinceramente, eu não sei. Mas tenho algumas suspeitas.
1. Trata-se de mais uma vaidade do ego. Precisamos de alguém que fale o que desejamos ouvir. Que aquela noite foi especial, que aquele acontecimento foi marcante, que você é única no meio dessas 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta;
2. É só mais uma ilusão saudosista que tenta reviver os mesmos sentimento que existiram em "x" .
Faz parte da eterna insatisfação humana.
3. Somos egoístas. Assim como na primeira hipótese, nós pensamos que queremos dividir algo com o outro, mas não, queremos que ele queiria nos agradar. Precisamos estar no centro do pensamento do outro, das lembranças do outro, do presente do outro.

No meu caso, foi um pouco dos três. É claro que eu estava bem intencionada. Lembrei dos 16 meses assim que datei a primeira folha de hoje, todavia, já muito pronta pra fugir desse mimimi, não falei nada. Eu não queria que datas fossem importantes, lembra? Depois listei mentalmente as outras datas importantes do mês. 14/11, 23/11... e me convenci que se ele lembrasse da ultima, tava tudo OK.

O ruim mesmo foi passar o dia tão longe. Ver de relance e trocar uns "eu te amo" enrolados, falar rápido demais no telefone, falar no whatsapp até se chatear...

Depois disso, de quando sua consciência já ta cansada, quando você já ficou com ciume do dia dele ter sido tao cheio que ele nem teve tempo de te mandar um oi (mesmo tendo te ligado, numa ligação que a essa altura você vai achar o defeito), você começa a maquinar sobre o desleixo dele com vocês, com a relação.

Talvez ele nem seja tão vilão assim, mas foi assim que nos ensinaram, não foi? Que tem um certo e um errado. Que provavelmente você é a certa. Aí você aceita a carapuça de moça apaixonada que não é valorizada e começa o mimimi. Ele não lembra de nada, ele não se importa com nada, ele nem sabia que dia era hoje, ele não me ama.

Não. Não sejamos assim. Nós somos as únicas responsáveis pelas expectativas que colocamos na vida. As pessoas já têm os seus próprios forninhos pra segurar e, principalmente por ama-las, nós temos que engolir o mimimi, erguer a cabeça e, mais uma vez recordar tudo de bom que se passou de "x" até aqui. Além de, dar mais uma chance pro caboco: "mas se ele esquecer meu aniversário, ele vai se ver comigo!". 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

tpm

A Ruth Manus escreve pro Estadão semanalmente às quartas.
Ela sempre tem um texto que te faz parar e pensar na sua vida, nos nossos comportamentos, relacionamentos  e etc.

O texto dessa semana se chama Cartas para mim mesma em dias de TPM e diz mais ou menos assim:

Lembro-me daquele filme com a Drew Barrymore, em que, por causa de um acidente, ela perdia a memória toda noite e acordava sem entender nada. O marido fez, então, um vídeo para ela com o resumo do que tinha acontecido desde o acidente: a perda da memória, o casamento deles, a filha que eles tiveram… Então ela assiste, se emociona, se situa e começa o dia bem.
Acho que em dias de TPM cruel é assim que ficamos. Desnorteadas, sem lembrar direito quem somos, tomadas por essa súbita sensação de que está tudo super errado. Foi com base nessa ideia que escrevi uma pequena carta para ler nessas manhãs em que beiramos o desespero e a total falta de bom senso, visando nosso bem estar e a sobrevivência digna dos coitados que nos cercam nessas horas. 
Será que pode adiantar alguma coisa? Pelo bem de nossos corações e pelo bem da humanidade, tentemos.

“Bom dia, linda. 
Linda, isso mesmo. Você é linda, pra começo de conversa, apesar do inchaço, das espinhas e das olheiras.
E o dia vai ser bom sim, por mais que não pareça. Está tudo ok, gatinha, sem neurose.

Eu sei que seus pés estão parecendo bisnaguinhas, seus seios estão super doloridos e seu apetite totalmente alterado. 
Eu sei que você está tomada por uma irritação monstruosa e está tentando se controlar para não jogar um copo (ou uma pessoa) contra a parede. 
Eu sei que bate uma vontade de chorar a cada 10 minutos, que parece que o mundo te virou as costas e tudo está indo de mal a pior. 
Eu sei que você olha para o espelho e vê um misto de Shrek, Vandinha Addams e Alf, o ETeimoso. 
Eu sei que você provavelmente quer se vestir de preto dos pés à cabeça, porque é o mais perto que você consegue chegar de uma burca. 
Eu sei que você se culpa por todos os problemas do mundo. Pelas crianças famintas na África, pelo aquecimento global e pela ameaça de extinção do mico leão dourado. 
E o pior: que você se culpa por não conseguir domar minimamente suas emoções.

Escuta, linda. 
Shit happens. Não se culpe não.
Vamos tentar pegar leve. 
Sei que se eu te disser pra ir correr no parque, tomar um suco verde e fazer uma drenagem, você me mata.
Sei que você quer cama, edredom, panela de brigadeiro e controle remoto.
Mas vamos tentar não nos afundar muito, tá? Um suco de maracujá vai ajudar. Uma amiga por perto também.
Beba bastante água, você precisa desinchar. E, sério, não caia na cilada de achar que o café e o álcool vão ajudar. Não vão, você sabe disso.

Não discuta relação hoje. Não pense sobre o futuro da sua carreira. Não critique seus pais. Aguarde 2 dias para tudo isso.
Não assista Meu Primeiro Amor. Nem Bambi. Nem Ghost. Nem Titanic. Muito menos O Menino do Pijama Listrado.
Não ouça a Adriana Calcanhotto arranhando os seus discos. Nem a Whitney Houston gritando que vai amá-lo para sempre. Nem o Djavan desaguando no oceano. Muito menos aquela música da Carolina Dieckmann raspando o cabelo na novela.

Evite cartas antigas.
Evite exageros.
Evite o cartão de crédito.
Evite seu ex.
Evite mudar o visual.
Evite o saleiro.

Mas se quiser chorar, chore. De preferência no banheiro, para não ter que se explicar. E se alguém perguntar por que você está com essa cara deformada, diga que é alergia a pólen.
Se estiver com muita raiva, grite no carro ou com a cara no travesseiro. Dê uns socos no colchão. Mas não faça malcriação para as pessoas queridas. Nem grosseria com o seu chefe ou com o seu estagiário.
E não use a TPM como desculpa para fazer o que bem entender. Nem para fazer o que geralmente não tem coragem. TPM não é salvo conduto para fazer coisa errada. Você está desequilibrada, mas não se tornou uma inimputável.

Mas a verdade é que a TPM existe.
E a gente sofre, por mais que muitos digam que é exagero.
(e por mais que muitas, de fato, exagerem.)
Então cuide de você, menina. Se faça carinhos.
Um banho gostoso no escuro (sem demorar muito, especialmente se você morar em SP), com uma musiquinha inofensiva, tipo Aretha Franklin cantando I Say a Little Prayer.
Se dê uma boa noite de sono. Vá pra cama mais cedo, com aquela camisola mais gostosa do mundo, meião esticado e 4 travesseiros.
Abrace as pessoas amadas, que não vão te julgar se você der uma choradinha sem sentido e começar a balbuciar coisas ininteligíveis. 
Assista O Diário de Bridget Jones. Impossível não se sentir melhor.
Leia umas páginas de Cora Coralina. Uns versos de Vinícius. Umas crônicas do Veríssimo.

Não se inquiete tanto.
Não se autoflagele.
Não se puna.
Não se culpe.
Não se estrague.

E, acima de tudo, lembre-se, gatinha: você está enxergando tudo 3 vezes maior do que é: seus problemas, suas dúvidas e principalmente os seus quadris.

Vamos lá, bonita! Bom dia! Em alguma medida, te juro que está tudo bem! ♥”

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