quarta-feira, 17 de março de 2010

Quanto tempo dura uma hora?

“A sensação da passagem do tempo é diferente entre adultos e crianças por uma razão muito simples. Elas, as crianças, vivem o tempo todo no presente.”



Na chegada do meu primeiro filho, tive um sonho delirante: em vez do bebê minha mulher tinha parido um relógio! Posteriormente, a experiência de pai me mostrou que o delírio era pura realidade. Filhos são uma espécie de tic-tacs inseparáveis que irão nos acompanhar pelo resto da vida. Quando nos tornamos pais, as semanas passam a ter sete dias e os dias 24 horas. A casa de uma família com filhos nunca fecha. É rotina comparável a uma farmácia de plantão ou batalhão do Corpo de Bombeiros. 
O aprendizado de conviver com esses verdadeiros reloginhos de carne e osso às vezes é divertido mas bastante trabalhoso. Nas férias, gastei saliva para explicar para Miguel, meu filho de 8 anos, que não valeria a pena a gente ficar uma hora na fila de um brinquedo da Disney que nos traria apenas dois minutos de diversão. Semanas depois, a família toda está dentro do carro a caminho da casa dos avós, já exausta depois de 300 km de estrada. Miguel manda a clássica pergunta:  
– Tá chegando?  
– Sim, eu respondo, agora falta pouco. Só uma hora.  
– Ué, aquele dia você não disse que uma hora demorava muito?
 
A sensação da passagem do tempo é totalmente diferente entre adultos e crianças por uma razão muito simples. Elas, as crianças, muito mais sábias, vivem o tempo todo no presente. Enquanto nós, adultos, vivemos angustiados com o passado ou ansiosos pelo futuro. O tempo é o grande dilema dos adultos. Passamos as duas primeiras décadas de vida sem nos importar com o assunto. Depois, tentamos evitar a todo custo o peso dos anos. Temos profundas dificuldades com a ideia da velhice, da perda de potência física ou do fato inexorável de que estamos a caminho do último dia de nossas vidas.  
Nasci numa família grande do interior de São Paulo. Qualquer almoço de domingo por lá reúne no mínimo 50 pessoas. E isso não é modo de falar, é fato! Em famílias grandes, a morte é assunto inevitável. Seja pela idade avançada dos idosos ou pela estatística dos acontecimentos como uma doença fatal que leva o cachorro do tio ou da cunhada. Foi num domingo especialmente solene, marcado pelo encontro raro de duas alas da grande família, que meu sobrinho Gabriel, na sabedoria dos seus 7 anos, deu o show. Com todos sentados em silêncio após a reza, prestes a iniciar o regabofe, o moleque começa a girar como um pêndulo humano, correndo ao redor da grande mesa. A cada cadeira, para, fala o nome e entrega a idade do ocupante. 
– Vô Ézio… 69 anos, Guilherme… 15 anos, tia Isabel… 36 anos!
No final do giro, se aproxima lentamente do bisavô que ocupa a cabeceira da mesa:  
– Bisavô Milton… 94!  
Aí faz uma longa pausa e dispara sem a menor cerimônia:  
– Vai morrer primeiro!  
A mesa desabou numa gargalhada e o almoço começou em grande estilo, inspirado pela consciência do garoto. 

Marcelo Tas

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